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A Força de Indução da Máquina de Vendas

“Somos convencidos a consumir o que não precisamos, e ainda somos compelidos a acreditar, que o fazemos porque é o nosso desejo."

Autor: Os Editores[1]


 

Uma ação, de preferência inconsciente, é o que se espera de uma máquina...
Sem questionar as muitas faces do sofrimento humano, acreditamos, não porque seja nossa opinião, mas porque podemos ver os fatos, que na mesma proporção que o homem se torna mais sofisticado, isto é, que progride material e cientificamente, aparentemente seus problemas parecem acompanhar esse pseudoprogresso, uma vez que se tornam mais complexos, cada vez mais difíceis de definir a origem e de serem resolvidos, se tornando mesmo uma parte integrante da sua fisiologia.

É complexo fazer o homem ver, que embora o mundo à sua volta apresente um certo progresso tecnológico, emocionalmente, e psicologicamente ele continua tão primitivo quanto nosso mais remoto ancestral. Continua com medo da própria sombra. Ainda é quase que inteiramente controlado pela superstição, não consegue se entender com o seu próximo, e assim por diante.
  Acaba constituindo-se um homem problema, não um homem sujeito à ação dos problemas, mas um homem gerador de seus problemas, porque se torna incapaz de viver sem eles. Eis uma síntese do homem que somos, uma fonte permanente de problemas, não porque sejam necessários ao nosso viver, mas porque se tornou a principal engrenagem do nosso viver moderno, a força motriz de todas as sociedades que se especializaram em criar problemas, em seguida criar paliativos para estes problemas, que por sua vez são causadores de outros tantos, num círculo vicioso aparentemente impossível de conter. Se um problema tem uma causa, logo nossa sociedade nos ensina que devemos evitar tais causas; isso pode não resolver o problema, mas as tais formas de fuga deverão criar um mercado interessante para estimular o consumo de novos produtos e serviços.

A maioria das soluções para os nossos problemas, tem como conseqüência a criação de outros, mas isso não importa, pois na mesma proporção que eles são criados, há uma sofisticada máquina encarregada de tentar resolvê-los. Há uma solução pronta para quase tudo, uma solução evidentemente paga, um produto, uma forma de distração, que pode ser um bem material, ou apenas um serviço de aconselhamento. Nosso inteiro viver se transformou numa motivação para obter lucros e vantagens pessoais, o que quer dizer comprar e vender, e chegamos a um ponto onde não sabemos mais agir de outra forma. Se buscamos apenas obter vantagens pessoais, se isso se torna nossa principal motivação, a razão do nosso viver, logo nos tornamos uma fonte em potencial de problemas, muitos problemas.

Traçamos tantas metas a serem alcançadas, tantas conforme ditam as tendências de mercado, e mudamos de trajeto, tantas vezes quantas determinem essas mesmas influências. Nos tornamos seres sazonais, uma espécie de máquina que funciona conforme manda a engrenagem mestra da sociedade de consumo, de acordo com o tempo de cada estação, ou modismo, ou onda da vez, sem vontade ou querer próprio, autênticos fantoches capazes de rir ou chorar conforme seja a orientação, conforme seja a ordem do dia.

Observando a causa do nosso sofrimento, ou a motivação por trás de nossas tristezas ou alegrias, teremos quase sempre em seu entorno, razões de consumo, razões onde vamos perder ou ganhar alguma coisa, sejam sensações, sejam bens materiais. O que dá no mesmo, pois emocionalmente temos sido trabalhados a agir compulsivamente, não pela razão, mas pela emoção irracional, e a emoção é quase sempre um estado irracional, onde o intelecto é incapaz de atuar. Um ser humano emotivo, cujo emocional é controlado pela ideia do consumo compulsivo, é um ser em conflito, em desarmonia com ele mesmo e com todos à sua volta. Não há como evitar a competição entre as pessoas num ambiente dessa natureza. Se cuidamos da nossa estética pessoal, logo o fazemos usando um modelo comparativo, o modelo dos nossos sonhos, uma condição que originariamente não possuímos. Não podemos ser felizes se não aceitamos o que somos, se nos idealizamos e nos realizamos nos ideais de outros, na estética alheia, na realização de estranhos.

Nossa sociedade nos oferece essa possibilidade, de sermos aquilo que gostaríamos de ser, nunca o que verdadeiramente somos. Ela nega que somos suficientes para nós mesmos, que podemos ser felizes com o que somos, com aquilo que temos, com aquilo que de verdade podemos conquistar. Ela nos oferece a possibilidade de conquistarmos o inconquistável, de sonharmos o que nunca foi sonhado antes, de transformarmos o mundo onde vivemos conforme seja nossa vontade, pela força, pelo poder, pela importância que buscamos ter. Tem, o meio social e sua força motriz, poder suficiente para criar em nós a ideia de que podemos nos tornar importantes, poderosos, e que isso é tudo que importa como realização para o homem, que isso é o que todos sempre buscaram ao longo do tempo, representando mesmo o objetivo da vida.

Emocionalmente, desde a menor infância, já somos bombardeados continuamente, com a ideia de que precisamos ser destacados em tudo que fazemos, que isso nos tornará mais importantes e notórios que os demais, que esta é a chave da felicidade que todos procuram, algo que todos devem conquistar. Aliás só podemos ser importantes se existirem aqueles que não são importantes, ou não teríamos como aferir nosso sucesso. O problema maior é que esta suposta felicidade tem forma, tem um modelo que precisa ser seguido na íntegra, são regras que vão desde a aparência pessoal, às nossas inclinações e preferências. Como a maioria de nós não se encaixa no modelo preconizado pela sociedade para obter o êxito total, sempre falta alguma coisa, é aí que surge a máquina de consumo com suas mágicas soluções, de olho no incremento de suas vendas, com a missão de preencher, de suprir essa deficiência, que podemos chamar de carência. Ela promove a ideia de que podemos melhorar, de que podemos nos transformar, de que podemos compensar e preencher os requisitos que nos faltam, na caminhada em busca da felicidade, tudo isso através do consumo.

Chega um ponto onde não temos mais vontade própria, se é que um dia a tivemos, e todos os nossos desejos e emoções são regidos pela força dessa poderosa influência. São capazes de nos fazer chorar ou rir, com a mesma facilidade que induzem à revolta ou a comoção coletiva. Controlam nosso agir; nossos pensamentos são seus pensamentos, os assuntos de nossas conversas são seus assuntos, nossos objetivos são seus objetivos, nossa inteira ideia de realização pessoal, são suas ideias. Pelo completo domínio das técnicas de indução, são capazes de escolher por nós e nos convencer de que o fizemos porque essa era nossa vontade. Conseguiram introduzir no inconsciente, e consciente coletivo, a diretiva de que podemos comprar qualquer coisa, e isso certamente inclui nossa felicidade, e a solução de todos os nossos problemas. Nossas angústias e conflitos, e qualquer situação que possa se chamar de problema, pode ser consertada a partir do consumo de alguma coisa.

Convencidos de que ser importante é a meta de qualquer ser humano, nos tornamos terreno fértil para a propagação de suas mais absurdas ideias e ideais. Conscientes do que fazem, o fazem com objetivos bem delineados, e isso significa ter o controle absoluto sobre nossa vontade, sobre os nossos desejos. Com o passar de várias gerações, acabaram por criar um homem de sentimentos artificiais, tão artificiais que se prestam a preencherem-se, com as ilusões que criaram para lhes distrair. São os encantos dos efeitos da moderna tecnologia, é a facilidade do conforto pela lei do menor esforço, é o imediatismo das soluções prontas, que se apresentam como a cura e solução para todas as nossas carências.

Se vivemos uma vida de artificialismos, vazia da realização do ser espírito, dentro da compreensão de cada um, ao modo que cada um é capaz de compreender, isso pode ou não estar bem evidenciado. Mas, não podemos negar nossa frustração em relação ao sofrimento e a angústia existencial. Se de um lado podemos, através do consumo, tentar preencher nosso vazio interior, podemos também concluir que sempre nos falta alguma coisa, sempre nos faltará, e lá no final do nosso caminho, os nossos maiores medos, estarão para sempre à nossa espreita, e façamos o que fizermos, seja qual for nossa importância no mundo, não poderemos deles nos livrar.

Onde há sucesso há a possibilidade do seu oposto; onde há vitória há o seu oposto; onde há saúde há o seu oposto, e se por um instante existencial, podemos isso ignorar com a ilusão das coisas fáceis, com a ilusão das sensações tácteis, com a ilusão de que temos poder e importância apenas porque podemos comprar, ou porque temos saber, logo a realidade suplanta a ilusão e a frustração apresenta sua face. Quando nos convenceram de que para sermos felizes, deveríamos cumprir o roteiro que escreveram para nos tornar realizados; quando nos programaram para competirmos uns contra os outros em busca de superioridade, e acharmos isso saudável e natural; quando nos convenceram que devíamos acumular para garantir nosso futuro de estabilidade, para garantir que nada nos aconteceria, que estaríamos seguros contra qualquer eventualidade agindo assim, criaram na verdade, um ser facilmente controlável, que reagiria às suas ordens, intelectualmente e emocionalmente.

A ciência que chamaram de Neurolinguística se presta exatamente a isso, através de palavras cuidadosamente escolhidas, comandos chaves, são capazes de induzir o comportamento que desejarem em quase todos os homens. Assim, não podemos ficar alheios, quando a propaganda nos incita de que podemos ser importantes, mais capazes, mais elegantes, mais inteligentes, pelo simples fato de usarmos seu mais revolucionário e novo produto ou serviço. A ideia de que podemos ser mais, simplesmente por possuirmos seu último modelo, de sermos repetidores de sua mais nova ideia, seu mais recente modismo, nos atrai, pois é exatamente isso que no fundo deseja a maioria de nós. Queremos destaque, queremos ser notados ao chegarmos em qualquer lugar, queremos fazer parte de um grupo atuante e poderoso. Nos assusta, à maioria pelo menos, o simples pensamento, de que poderemos ser para sempre, um ninguém, um indivíduo comum sem nenhuma importância social, alguém que entra e saí sem que seja percebido.

Faça parte do nosso grupo e seja moderno, atual; compre nosso produto e seja diferente, demonstre toda sua classe e charme; ora, não é exatamente isso que deseja alguém cujo objetivo de vida é ser notado, é ter alguma importância no meio onde vive ou freqüenta? Ter reconhecimento e sentir-se útil diante dos outros, parece atrair a maioria de nós? Sentir-se útil não é ser útil, não podemos ser útil apenas porque temos o poder de consumir. Ser útil é fazer alguma coisa em benefício de si mesmo, alguma coisa que nos prepare e nos dê lastro para os dias de incerteza, de dificuldades, já que atribulações são coisas normais na vida de qualquer ser humano. Sem um espírito forte, posses e bens materiais nunca serão uma garantia contra as vicissitudes da vida, contra nossas desilusões, contra os males psicológicos da doença, do fracasso, da angústia existencial de cada ser. Ser útil nunca poderá ser, o ter mais ou ter menos, isso é o caminho para a frustração e o eterno conflito de querer sempre mais, ou manter aquilo que já se obteve. Ser o que é, não aquilo que nos dizem que devemos ser, mas ser o que somos, livres da opressão autoritária que institui como devemos ser, isso é o primeiro estágio do ser útil.

Ser útil é sentir-se livre, livre para fazer o que manda nosso sentimento, não seguir à vontade alheia, seja por consideração, seja pelas obrigações sociais. Se fazemos porque é nossa obrigação, ou porque é o dever do cidadão, de forma alguma estamos fazendo alguma coisa, apenas sendo usados para que o mecanismo da insensibilidade se mantenha em operação. É uma ação mecânica, como a engrenagem de um relógio que funciona apenas porque foi projetada para isso. Agimos como máquinas e fazemos porque, ou é nossa obrigação, ou nosso dever, ou nosso comprometimento, ou porque manda a lei, mas quase nunca paramos para refletir sobre o nosso mecânico agir. Falta-nos bom senso, falta-nos vontade, não a vontade da máquina maior que nos controla, mas a nossa, essa grande desconhecida, já que deixamos nos levar, pelo sempre constante fluxo das ondas de consumo que arrastam o mundo.




Autor: Os Editores
email: sitededicas@yahoo.com.br



Notas:

[1] Os artigos aqui apresentados, além de refletirem nossa opinião sobre os diversos assuntos da atualidade, são resultados de estudos antropológicos dos nossos pesquisadores, que ora são divulgados ao nosso público leitor.


 
 
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