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O Que Ensinam as Escolas - Parte 1
"O homem atual é o resultado do que já foram todos os outros homens...”
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A criança apreende o que vê
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Seria de bom grado que as famílias se preocupassem com as idiossincrasias dos próprios filhos, tanto quanto se preocupam com as dos filhos alheios. Não é para nós nenhuma novidade, que apenas eventualmente paramos para conhecer mais de perto nossos filhos.
Conhecemos não, na realidade estar familiarizados com a presença seria o termo mais apropriado, porque compartilhamos do mesmo espaço físico em casa, mas sabemos mais sobre nossos amigos e amigas, que sobre eles. Sabemos do que gostam nossos afetos, sabemos os filmes que assistiram, os livros que lêem, quais suas opiniões sobre os acontecimentos atuais; e sobre nossos mais próximos, que são nossos filhos, sabemos tanto?
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A estrutura familiar tradicional é um núcleo que naturalmente se isola do mundo exterior, seja pelas afinidades e gostos pessoais dos pais, seja pelo modelo de sociedade onde vivemos. Constituímos nosso próprio núcleo, e eventualmente compartilhamos com outros núcleos familiares, ainda que de modo superficial, algumas preferências comuns, seja uma ideologia, seja uma aptidão. São as atividades sociais, encontros festivos, reuniões de interesse comum, situações que nos trazem algum tipo de benefício ou satisfação. É um convívio artificial, uma rotina instituída pela sociedade, uma espécie de obrigação necessária para acalmar nosso tédio. Assim, também criamos nossos filhos, é um padrão que um dia já adotamos, sendo agora repassado aos nossos herdeiros, e se somos infelizes, também nossa infelicidade, será por eles herdada.
Os sofrimentos podem variar de indivíduo para indivíduo, assim um mesmo sofrimento, pode não servir de modelo para outra pessoa. Como adultos racionais que deveríamos ser, acostumados com nosso próprio sofrer, nosso sofrimento particular o qual nunca aprendemos a resolver de uma forma definitiva, seria justo e sensato, que fizéssemos a seguinte reflexão: Se isso me faz sofrer, e se como adulto sempre me incomodou e ainda, mesmo após toda experiência de vida, depois de todo conhecimento que acumulei, não aprendi a transcender tal problema, não devo torná-los cientes de que tal coisa existe?
Se existe miséria no mundo, por que não devem eles aprender sobre isso em casa, direto de fontes confiáveis que são seus pais, ao invés de deixarmos para outros tal incumbência? Não virá daí parte da deformação comportamental de nossos filhos? Quem lhes ensina na rua? Aprenderão de fontes qualificadas e confiáveis? E mesmo na escola, que deveria tomar para si parte dessa atribuição, será que há essa preocupação?
Sabemos o que ensinam as escolas, pois também um dia já fomos alunos, como também sabemos que a escola não prepara cidadãos prontos para enfrentarem e resolverem os problemas humanos, que são os mesmos do nosso tempo, alguns sutilmente modificados, outros idênticos. Com o tempo o mundo mudou, tornou-se mais sofisticado, ganhamos mais conforto material, pelo menos para quem deles pode usufruir. A tecnologia nos proporciona uma qualidade de vida nunca dantes imaginável, e logo, graças aos avanços da medicina, o homem centenário será algo trivial. Mas, e psicologicamente o que mudou no homem, o que mudou nos conflitos e angústias humanas desde nosso tempo de ginásio?
Deixou o homem de sofrer, superou todas suas angústias, aprendeu a superar os problemas do seu dia-a-dia com o avanço tecnológico, e dos costumes sociais focados na acumulação de riquezas e consumo? Sabemos que não, como também sabemos que o mundo cada vez mais se estreita, se torna mais impessoal. Podemos ver que nossos conflitos, apesar do suposto engajamento da sociedade em criar um modelo mais justo, só se agravam, que o homem se torna cada vez mais impiedoso e competitivo. Num mundo de poucas oportunidades e muitos candidatos, a massa de perdedores e segregados será cada vez maior. Que mundo nossos filhos terão pela frente? Desse apenas temos uma vaga idéia, mas se formos sensatos o suficiente, e não criadores de ilusões, podemos deduzir que não será melhor do que o atual.
Como fomos educados pelos nossos pais e professores? Será que da forma correta nos ensinaram como lidar com problemas desde cedo, ou desde tarde, ou nunca fizeram isso? E o papel da escola em nossas vidas, o que nos ensinaram a não ser variadas formas teóricas de prestar exames, muitos deles irreais e sem aplicabilidade alguma, apenas para mais tarde nos tornarmos profissionais capazes de competir e conseguir o emprego que vai suprir nossas famílias. Será que não passamos tempo demais, talvez anos a fio, acumulando conhecimentos de coisas que jamais teriam proveito algum em nossas vidas?
Como resolver conflitos e superar angústias pessoais; alguém nos ensinou sobre isso? E sobre as vicissitudes da vida, por quanto tempo esconderam de nós o que julgavam impróprio; acaso tudo isso não fazia parte do nosso mundo, feiúra e beleza? Porque só nos mostravam a parte da ilusão agradável de ser vista e nos esconderam a verdade do sofrimento humano, acaso isso não faria parte de nossas vidas no futuro? Foi justo aprendermos com o mundo, ou não aprendermos, de forma muitas vezes deformada e imprópria, tendo em casa e na escola pessoas capazes que já tinham conhecimento prévio sobre tudo isso?
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O Belo é um sentimento e não uma idéia
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Certamente que cientes da realidade, seríamos jovens mais prudentes, mais atentos, e adultos mais capazes de resolver os problemas da vida. Sabendo o que teríamos pela frente, nos tornaria mais responsáveis e mais respeitadores do nosso próximo, por sabermos compartilhar do mesmo sofrimento. Sabendo que o mundo é cruel, não me torno mais um a alimentar essa engrenagem, por omissão. Ciente desde cedo dos problemas que terei pela frente, vou ter mais tempo para me trabalhar como ser humano racional e respeitador dos menos favorecidos, do que terei ao atingir à maioridade e disso tomar conhecimento, bruscamente, através de angústias que jamais saberei como resolver, que me atormentarão pelo resto dos meus dias.
Repetem então os pais, e os pais dos pais, na verdade é imitação, o que também já imitaram ao longo das gerações passadas. Mas, se o que aprendemos pela imitação, não foi suficiente para livrar-nos das angústias e sofrimentos do mundo, por que então devemos repassar esse modelo cruel, insensato e ultrapassado para nossos filhos? Refletindo melhor, vamos perceber que com nossos filhos, verdadeiramente pouco nos importamos. Nossa preocupação se limita, em supri-los do conforto material que estiver ao nosso alcance, e da chamada educação padrão. É uma obrigação e poucos são os pais que se interessam em saber o que estas escolas lhes incutem; quem são seus professores, se não são apenas profissionais engajados por necessidade nesse ramo, portanto sem vocação alguma para a verdadeira arte de educar.
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Ensinar deve antes de tudo ser uma vocação, a não ser que a educação pretenda ser uma instituição de formar competidores e indivíduos ambiciosos de poder e querer sempre mais do que são capazes de conseguir; ávidos por vencer a qualquer preço, orientados para não aceitarem os próprios erros, e nunca aprenderem com as próprias falhas. Logo se tornarão sujeitos inflexíveis, incapazes de se adaptarem às mudanças sempre constantes, e inevitáveis da vida.
É a vida algo que está sempre em movimento, sujeita a variações diárias, o que exige do indivíduo uma grande simplicidade no agir. Exige esse mundo com seus problemas, uma disciplina que não é a submissão cega às autoridades supostamente detentoras da verdade, uma mente jovem e flexível, pronta para se adaptar a qualquer condição. Não sendo assim, viverão para sempre imersos em um sem fim mundo de conflitos pessoais; oprimidos, angustiados por serem incapazes de ser eles próprios. Serão assim obrigados a seguir padrões centenários, padrões que não foram capazes de libertar o homem dos seus receios, de uma pauta cada vez mais sofisticada e crescente de sofrimento.
Errado e certo, sobre isso aprendemos com a experiência do viver, e isso também não podemos negar aos nossos filhos. Afinal aprendemos tentando, errando e acertando, com as tristezas e com as alegrias, com os pequenos e grandes contratempos. Cientes dos nossos conflitos, muitos dos quais negamos, outros que sequer sabemos em nós existir, deveríamos ao menos refletir sobre eles, pois certamente que farão parte do viver dos nossos sucessores. Assim, mesmo que eventualmente, seria de bom grado, compartilharmos com eles, das suas próprias dúvidas existenciais e angústias. Como podemos fazer isso? Do mesmo modo que tratamos com nossos amigos na rua.
Aos menos experientes, deveríamos mostrar as conseqüências das experiências mal conduzidas, o lado verdadeiro do inconseqüente, das irresponsabilidades; os efeitos e danos que são capazes de causar em nossas vidas. Seria sensato que lado a lado com o mundo de fantasias que cuidamos e insistimos em mostrar aos nossos filhos, eventualmente, até porque tudo na vida tem seu oposto, por uma questão de respeito, também lhes mostrássemos o lado feio da vida. Afinal de contas, não é a vida um conglomerado de coisas negativas e positivas? Estará mais apto a sobreviver quem conhecer todos os caminhos e não apenas o florido. E se algum dia o caminho florido desaparecer, não ficará o peregrino perdido sem saber que rumo tomar?
Autora: Ester Cartago
email: estercartago@yahoo.com.br
Veja mais detalhes sobre a autora nas notas abaixo.
Notas:
[1]
A autora é psico-orientadora em educação infantil e fundamental. Também escritora de contos infantis, e colaboradora eventual do Site de Dicas.
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