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Tragédia Maior que a Minha
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Quando eu tinha meus dez anos, manifestou-se em mim uma revolta íntima que me levaria por
certo a um perigoso complexo de inferioridade. É que não me conformava com a pobreza em
que vivíamos, a ponto de magoar meus pais.
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Certa ocasião, nas vésperas do natal, papai comprou-me um par de sapatos, de qualidade
inferior. Quando cheguei em casa, chorei amarguradamente, pois desejava um de melhor
qualidade, como alguns dos meus companheiros e vizinhos, para apresentar-me na festinha
da escola.
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Quando me acalmei, mamãe, que tinha procurado convencer-me de que não faria má figura, saiu
comigo, levando embrulhado, sem que eu percebesse, o meu par de calçados velhos.
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Ia cumprir a promessa que fizera a uma amiga de levá-los ao seu filho, mais ou menos da
minha idade, pois o pai dele estava desempregado.
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Antes que ela me dissesse qualquer coisa, compreendi que a tragédia do menino era bem
maior do que a minha.
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De volta, carinhosamente, mamãe comentou aquela boa lição que se gravou de maneira
indelével em minha alma e até hoje me serve de estímulo, nos momentos de
dificuldade: “A nossa desgraça, se avaliarmos bem, é sempre menor que a do nosso próximo.”
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Bastos Neves, São Paulo Brasil
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