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A Lenda do Saci Pererê
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Nos mitos está a essência de grande parte de nossas crenças.
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Normalmente é descrito como sendo, negrinho, lustroso, sem pelos no corpo
nem na cabeça; dois olhos vivos e vermelhos. Sua altura não passa de meio metro, pula
com grande agilidade numa só perna, possui dentes brilhantes e brancos. Orelhas como de morcego,
carapuça vermelha. Quando vê gente assobia. Adora assobiar de surpresa aos ouvidos dos
viajantes, deixando-os desorientados pelo susto.
Dizem também que ele, na verdade eles, um bando de Sacis, costumam
se reunir à noite para planejarem as travessuras que vão fazer. Ele ainda tem o poder de se transformar no
que quizer. Assim, vezes aparece acompanhado de uma horrível megera, vezes sozinho; outras vezes como
uma ave. Para os Paraenses, o Saci é a Mati-taperê, ou Matinta-Pereira. Em 1875, entre os índios
Munducurus, já existia a tradição.
O mais comum é que o Saci é relatado apenas como brincalhão e malicioso, mas nunca malvado.
Tanto, que são notórias suas gargalhadas à cada travessura praticada.
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A carapuça inseparável do Saci é encantada, e se lhe arrebatam, ele dará fortunas para recuperar.
Em Portugal há o Pesadelo. Ele é o Diabo que vem com uma carapuça e com uma mão pesada, que põe sobre
o peito daquele que dorme de barriga pra cima, não deixando-o gritar. Quem puder agarrar na carapuça, ele
fugirá pelo telhado e dará uma fortuna para tê-la de volta.
No Norte do país, o fabulário local substitui o Saci por outro.
O pesquisador Barbosa Rodrigues[4] escreve:
"...No Sul é Saci tapereré, no Centro Caipora e no Norte Maty-taperê.
O civilizado, que muitas vezes não entende a pronúncia do sertanejo, que é o mais perseguido por ele nas suas
viagens, tem-lhe alterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê, Sererê, Siriri, Matim-taperê, e até lhe
deu um nome português o de Matinta-Pereira, que mais tarde, talvez, terá o sobrenome "da Silva" ou
"da Mata". Para conseguir seus fins, e fazer suas proezas, sem ser visto, quase sempre vive o Saci ou
Mati metamorfoseado em pássaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancólicas, ora graves ora
agudas, iludem o caminhante que não pode assim descobrir-lhe o pouso, porque, quando procura vê-lo pelas
notas graves, que parecem indicar-lhe estar o Saci perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E
assim iludido pelo canto se perde, leva descaminho nunca vendo o animal."
O pesquisador ainda nos ensina que o mito do Saci se confundiu com tantos outros, especialmente em
volta das aves de canto disperso ou, como esse pássaro que tem o hábito de pousar numa só perna, dando a
impressão de ser unípede. O Saci quando tornado mito com forma humana terá apenas uma perna.
Poder-se-á dizer, que, a ave ou aves que determinaram o mito da Matinta são as responsáveis
pelo Saci atormentador. O mito é, pelo que me parece, inicial e unicamente ornitológico,
completa ele.
Saci - Casta de pequena coruja, que deve o nome ao grito que faz ouvir repetidamente durante a noite.
É pássaro agourante. Contam que é a alma de um pajé, que não satisfeito de fazer mal quando deste mundo, mudado
em coruja vai à noite agourando aos que lhe caem em desagrado, e anuncia desgraças a quantos o ouvem.
O nome de saci é espalhado do Amazonas ao Rio Grande do Sul. O mito, porém, já não é o mesmo. No
Rio Grande é um menino de uma perna só que se diverte em atormentar à noite os viajantes, procurando fazer-lhes
perder o caminho. Em São Paulo é um negrinho que traz um boné vermelho na cabeça e frequenta os brejos,
divertindo-se em fazer aos cavaleiros que por aí andam toda sorte de diabruras, até que reconhecendo-o o
cavaleiro não o enxota, chamando-o pelo nome, porque então foge dando uma grande gargalhada.
(Stradelli - Vocabulário Nheengatu-português).
Documentário:
Um Relato:
Da origem lendária do pássaro, Barbosa Rodrigues recolheu uma estória que publicou na sua obra
Poranduba Amazonense. Esta lenda é do rio Solimões.
Um Tuixaua tinha dois filhos e vivia feliz com eles. O tio odiava os sobrinhos e convidou-os para ajudá-lo
numa derruba de árvores para fazer plantio. Os dois sobrinhos aceitaram. Chegados na floresta, o tio embriagou
os dois rapazes e matou-os. Depois, um dos assassinados perguntou ao outro: "O que foi que sonhaste?"
"Sonhei", diz o segundo, "que nós nos lavávamos com carajuru". "O mesmo sonhei eu". E
voltaram para a casa da avó. Vendo-os, a velha ia aquecer o jantar mas os dois disseram: "Ah! minha avó,
nós não somos mais gente, e sim só o espírito. Assim seja, minha avó, nós te deixamos e quando ouvires cantar
"Tincuam! Tincuam!" foge para casa e quando cantarmos "Ti... ti.. ti" então reconhecerás".
A cor vermelha que os netos tinham nos olhos era o sangue.
Ficaram, desde então, mudados em dois pássaros de agouro, de mistério e morte. Um é o Uira-Pajé, Alma de
Caboclo, o Sem-Fim, o Saci. O outro é a Mati-taperé. Ambos, nascidos numa tragédia, espalham
desgraças e semeiam pavores.
O carajuru é um cipó de cujas folhas se extrai um pó vermelho-vivo que os indígenas empregam na
pintura de tecidos, uso de remédios e especialmente na "pajelança", feitura de puçangas, etc.
Outro Relato:
Relato retirado da obra, O Saci-Pererê, Resultados de um Inquérito"[5].
O Empregado da casa, que dormia num jirau, ambaixo do sobrado, num cômodo térreo em cujo centro acendia
fogo todas as noites, contava que certa noite acordara, violentamente agitado por um assobio,
estridente como nunca vira, que lhe entrara pelo ouvido direito e saíra pelo esquerdo. Assentou-se na
cama. O braseiro estava ainda muito vivo, dando relativa claridade ao aposento. Nada viu, mas o tropel
dos animais em torno do curral denunciava qualquer coisa de anormal.
Dispunha-se a levantar para ver se algum ladrão tentava uma sortida, quando a porta se abriu e o Saci entrou:
era um moleque retinto, simpático, de lábios muito vermelhos e calças arregaçadas, e foi logo
assentando-se no chão, ao pé do fogo. Pegou de uma brasa e começou a brincar com ela, atirando-a de uma
mão para outra mão. Como se sabe, o Saci tem a mão furada e quando a brasa acertava no furo, caindo no
chão, ele dava uma gargalhada e olhava para seu vizinho, encolhido na cama, duro de medo. O homem suava
e não podia gritar porque a língua estava pregada. Afinal, num esforço supremo, ergueu-se e começou a
a fazer o "Creio em Deus Padre" em Cruz (Credo). O Saci ergueu-se, fitou-o dessa vez muito sério, deu um novo
assobio ainda mais forte e desapareceu. (pp. 56/57).
Curiosas citações de relatos, de pessoas descrevendo o Saci, e que estão na mesma obra, ou inquérito:
1. O Saci é um tipo pequeno, preto, lustroso e brilhante como o pixe, não tem pelo no corpo nem à cabeça: dois
olhinhos vivos como o da cobra e vermelhos como os de um rato branco; a sua altura não passa de meio metro;
possui dois braços curtos e carrega uma só perna, com esta pula que nem cutia e corre que nem veado, o
nariz boca e dentes igualam-se aos dos pretos americanos (p. 40).
2. Ele vira também o Saci empoleirado no cavalo em carreira louca pelo pasto, em noite de sexta-feira,
ou trepado ao telhado da casinha do caboclo transido de medo, assobiando "molequemente" e divertindo-se
em quebrar as telhas. (p. 78)
3. Quando ria, saía-lhe fogo pelas narinas (p. 81).
4. ... vulto de um menor de 12 anos, mas sem uma das pernas, magrito, vivo, ativo, buliçoso, caviloso,
sem orelhas e trazendo um só olho em pleno frontal (p. 92).
5. ... ele foi sempre incapaz de uma perversidade de consequencias funestas. Limitou-se exclusivamente
a afligir os velhos escravos e escravas; assustar os crioulinhos; a afrontar os cavalos de estima, a
desarranjar os monjolos, moinhos, engenhos, etc. A carapuça do Saci tem uma importância capital. Quem
lhe deu foi o Eterno. Graças a ela, o terrível traquinas torna-se invisível aos olhos do Diabo (p. 97).
6. Contava-se que todas as sextas-feiras, à meia noite, o Saci ia ao baile, debaixo da figueira; e então,
arrancava as penas dos galos e galinhas para se enfeitar. Era por demais perigoso, passar alguém, em
tal noite, por perto de uma figueira; lá estava o raio do Saci, de carapuça vermelha e todo enfeitado,
a dançar e a cantar. E quem ousasse surpreender o Saci nos seus folguedos, perderia a fala e ficaria
bobo (p. 120).
7. ... vimos um vultinho preto, pretíssimo, com uma só perna, lábios e olhos vermelhos e com um
barretinho (gorro) da mesma cor na cabeça. Era o Saci. Estridentes e repetidos assobios sibilavam aos
nossos ouvidos. Entretanto o Saci não parava. Do leito da estrada subia aos lombos dos bois; de 2 a 3
palmos de altura elevava-se a 2, 3 metros, para voltar de novo a ínfima altura. E isso nos acompanhou
até a porta do sítio (p. 166).
Notas:
[4]
Um dos principais nomes na história da botânica brasileira, João Barbosa
Rodrigues (1842-1909) produziu também importantes contribuições para o
conhecimento de línguas e culturas indígenas da Amazônia.
No clássico *Poranduba
Amazonense* (1890), Barbosa Rodrigues publica uma coletânea de lendas e
canções em Nheengatu (ou Língua Geral Amazônica), com tradução interlinear
ao português, seguida de tradução livre.
[5]
São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, etc. - Notas do volume O Saci-Pererê,
Resultados de um Inquérito, São Paulo, 1917.
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