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A Lenda do Mapinguari
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Se nossos medos mais ocultos se tornam representações alegóricas vivas, compreender esses temores, nos
faculta então a cura dos medos.
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O Mapinguari é o mais popular dos monstros da Amazônia. Seu domínio estende-se
pelo Pará, Amazonas, Acre, vivificado pelo medo de uma população meio nômade que mora nas matas, subindo os
rios, acampando nas margens desertas dos grandes lagos e lagoas sem nome.
Caçadores e trabalhadores de todos os ofícios citam o Mapinguari como
um verdadeiro demônio do Mal. Não tem utilidades ou vícios cuja satisfação determine aliança momentânea com os
religiosos cristãos. Mata sempre, infalivelmente, obstinadamente, quem encontra pela frente. Mata para comer.
Descrevem-no como um homem agigantado, negro pelos cabelos longos que recobrem seu corpo como um manto, de mãos
compridas, unhas em garra, fome insaciável, ou "canina" como é conhecida uma fome de tamanha envergadura.
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Só é vulnerável no umbigo. É crença universal a existência da vulnerabilidade
umbilical dos monstros. Indica também que um dia nasceu de outro nascido, que é um ser vivente como todos os
outros que habitam a terra, apenas pertencente a uma linhagem pouco compreendida.
Em algumas regiões, também o Lobisomem, pode ser abatido pelo umbigo.
O Mapinguari, ao contrário de outras entidades fabulosas, não anda durante a noite. Durante a noite, dorme.
O perigo é de dia, a penumbra no meio das florestas fechadas que mal deixam passar a luz do Sol.
Na obscuridade dos troncos de muitas formas o Mapinguari se destaca, surge bruscamente, para atacar e
ferir. Mas não avança silencioso como seria a lógica. Vem berrando alto, gritos soltos, curtos, horríveis, que
deixam suas vítimas atordoadas, sem ação.
De longe os homens ouvem seus apelos terríveis. E fogem, sem olhar
para trás. É como se o Mapinguari estivesse desafiando os carajosos para um encontro supremo, face
a face. Esses gritos roucos e contínuos explicam os rumores naturais que a floresta produz e não se consegue
de forma sensata explicá-los. Assim, sem uma explicação lógica para os muitos e difusos barulhos e murmúrios
da densa e misteriosa mata, os homens logo atribuem ao Mapinguari tal repertório sonoro.
Qual seria a origem do Mapinguari? Não parece muito antiga
porque seu nome não está presente na lista dos cronistas coloniais. Aparece já nos tempos modernos, mais
comumente nas narrativas dos seringueiros, nas lembranças dos récem-vindos da Amazônia. Cronistas famosos
como o minucioso Stradelli, ou Tastevin, não registram sua existência nos vocabulários.
Seu físico é quase uma descrição literal do Caapora, assim
desenhado por Couto Magalhães [1]: "Um grande homem coberto de pelos negros por todo corpo e cara, montando sempre um grande
porco de dimensões exageradas, tristonho, taciturno, e dando vez por outra um grito para impelir a vara."
Essa é a descrição do Caapora, onde o porco é o elemento não concordante com o Mapinguari.
Já o Caapora de Gonçalves Dias [2] era um
índio anão. O Mapinguari é, evidentemente, um Caapora desfigurado, sem alguns elementos
que no passado autenticavam sua origem e atividade dentro das florestas. Guarda a estrutura, o grito, o
corpo vestido de pelos. Também o seu habitat florestal, continuando a ser um mito das matas, conhecido
especialmente por aqueles que nela vivem.
Resumo:
Mapinguari é um animal fabuloso, semelhante ao homem, mas todo cabeludo.
Os seus grandes pelos o tornam invulnerável à bala de qualquer calibre, exceção da parte do umbigo.
Segundo a lenda é ele um terrível inimigo do homem, a quem devora e despreza. Mas devora apenas a cabeça.
Acreditam alguns índios Tuixauas que se trata da reencarnação viva de um antigo rei de sua etnia, que
no passado habitava aquelas regiões.[3]
Como o Quibungo africano, o Mapinguari tem a posição
anômala da boca, rasgada do nariz ao estômago, num corte vertical, cujos lábios estão sempre sujos de sangue.
Depoimentos atestam que seus pés em forma de casco, são virados ao avesso, como o Curupira.
Informações Complementares:
Nomes comuns: Mapinguari.
Origem Provável: É de origem recente e possivelmente uma variante do Curupira. Nenhum cronista
do Brasil colônia ou império citam seu nome. Entre os seringueiros e moradores da floresta Amazônica é
quase uma unanimidade. Alguns elementos de sua fisiologia e costumes foram com certeza tirados do
Caipora ou Curupira. Mas não é de origem indígena, uma vez que há nele uma espécie de caráter
punitivo de cunho religioso, coisa alheia aos aborígenes.
O nome Mapinguari possivelmente se trata de uma contração de mbaé-pi-guari, a cousa
que tem o pé torto, retorcido, ao avesso. O início da surpresa seria o rastro de forma estranha, circular,
indicando justamente a direção oposta ao verdadeiro rumo. Posteriormente é que a imaginação criou a figura
material, semelhante aos outros monstros.
Quando ele apanha um caçador, mete-o debaixo do grande braço forte como aço, mergulha-lhe a cabeça na
imensa bocarra e masca-o, isto é, come-o aos poucos, mastigando lentamente, remoendo.
Em um ponto distancia-se do Lobisomem. Não há notícia de alguém poder se tornar Mapinguari. O
Sr. Mário Guedes[3], pesquisador de mitos, informa que é crença entre alguns índios Tuixauas, escutou isso
de um chefe indígena dessa etnia, que o Mapinguari era o "antigo rei da região". Mas se há essa lenda, o
Tuixaua só tomou a nova encarnação depois de morto. Mas, o Mapinguari é uma forma definitiva.
Um dos traços visíveis da catequese católica é a intercorrência do resguardo aos dias santos e domingos.
O Mapinguari escolhe quase sempre esses dias para suas aventuras predatórias. Caçador que encontrar
matando caça nesses dias proibidos e de preceito, é homem morto.
É opinião concreta entre os compiladores folcloristas, que nessa insinuação está a antiga influência da
catequese de tentar incutir entre os selvagens obediência a uma das leis da Igreja, sob o jugo do medo.
Documentário:
J. da silva Campos, em seu livro de contos tradicionais[4], relata o seguinte episódio.
O Mapinguari (Rio Purus, Amazonas).
Dois seringueiros moravam na mesma barraca, em um "centro" muito afastado, lá naqueles fins de mundo. Um
deles tinha por costume sair todos os domingos para caçar. O companheiro sempre lhe dizia:
"Olha, fulano, Deus deixou os domingos para a gente descansar".
Ao que ele retrucava:
"Ora, no domingo tembém se come".
E lá se ia para o mato, onde ficava o dia inteiro.
Por muita insistência sua, o companheiro resolveu-se a ir fazer uma caçada com ele, certo domingo. Foram e
perderam-se um do outro. O que não estava habituado a tais empreitadas andou muito tempo à toa, sem acertar
o caminho e já não sabia mais onde tinha a cabeça, de atarantado. Foi quando ouviu uns berros medonhos e
estranhos, que o encheram de pavor. Subiu mais que depressa numa árvore bem alta e ficou lá em cima, quieto,
imóvel, para ver o que era aquilo.
Os berros foram se fazendo ouvir cada vez mais perto, até que ele pôde testemunhar um espetáculo horrendo, que
quase o põe louco de terror. Um Mapinguari, aquele macacão enorme, peludo que nem um coatá, de pés
de burro, virados para trás, trazia debaixo do braço o seu pobre companheiro de barraca, morto, esfrangalhado,
gotejando sangue. O monstro, com as unhas que pareciam de uma onça, começou a arrancar pedaços do infeliz e
metia-os na boca, grande como uma solapa, rasgada à altura do estômago, dizendo em altas e terríveis vozes:
"No domingo também se come!"
Assim, o seringueiro viu a estraha fera engolir o infeliz caçador. E lá foi a besta horrenda pela mata,
urrando num tom de voz que fazia estremecer até as próprias árvores:
"No domingo também se come!"
Notas:
[1]
Um dos principais e mais atuantes pesquisadores do nosso Folclore.
Homem inteligente, falava francês, inglês, alemão, italiano, tupi e numerosos dialetos indígenas. Foi
quem iniciou os estudos folclóricos no Brasil, publicando O selvagem (1876) e Ensaios de
antropologia (1894), entre outros.
[2]
Antônio Gonçalves Dias. Consagrado escritor brasileiro. Sua obra pode ser enquadrada no Romantismo. Procurou formar um sentimento nacionalista ao incorporar
assuntos, povos e paisagens brasileiras na literatura nacional. Ao lado de José de Alencar, desenvolveu
o Indianismo. Por sua importância na história da literatura brasileira, podemos dizer que Gonçalves Dias
incorporou uma idéia de Brasil à literatura nacional.
[3]
Mário Guedes - Os Seringais, Jacinto Ribeiro os Santos, Editor, 2º milheiro, p. 221. Rio de janeiro, 1920.
[4]
J. da silva Campos (na coletânea de 81 contos populares) em Folclore no Brasil - de Basílio
Magalhães, Rio de Janeiro, Livraria Quaresma, p.321. - 1928.
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