"... Minha filha é muito precoce: Compreende tudo e dá cada palpite... Parece até gente grande!"
Não, não lhe posso dar parabéns por uma situação que creio ser até grave. Uma menina de cinco anos
que fala como gente grande (em tom de gente grande), que faz comentários sobre escândalos sociais, que dá palpites
sobre a vida alheia (acompanhado dos respectivos muchochos..."Hum, sei não..."), sofisticada, preciosa e
distante, é mesmo um caso digno de lástima.
Onde estão suas bonecas? As suas panelinhas de plástico e o seu fogãozinho de brinquedo? Diz a sra. que ela
prefere o vidrinho de esmalte e que já sabe cobrir de vermelho as pequeninas unhas (lamentável!). Que ao invés de
revistas infantis prefere as femininas adultas e que suspira virando os olhos ao ouvir os discos dos cantores
românticos da moda.
É possível que a sra. não sinta a monstruosidade do que está permitindo, e não só permitindo mas até
estimulando?
Então não lhe se apercebe a sra. que a pobre criança está sendo completamente estragada pelo seu
egoísmo, pela sua companhia e exemplo? Privando-a de ter amizades com outras crianças da sua idade, mantém
a sra. a sua filhinha trancada no seu lindíssimo apartamento. A sra. é a sua companheira (uma "criança"
demasiado crescida e igualmente mal educada) mas ao invés de descer até à menina que faz a senhora? "Oh filhinha
sente-se aí no divã, mas com elegância... (parece que vejo a cena) vou lhe contar o que foi a festa de
ontem..." E patati-patatá lá vai a sra. falando à menina como se estivesse fazendo com uma
pessoa da sua idade.
Quando as suas amigas visitam-na sua filha escuta "edificantes" conversas.
A princípio, de olhos esbugalhados e tìmidamente receptiva. Agora, entretanto, as experiências de tanto
repetidas já a fazem sentir-se como alguém da mesma roda e, foi não foi, lá sai uma das suas...
A sra., orgulhosa com o aparte, ainda realça o feito e as suas amigas, em coro, acham que a
garotinha "é formidável", que "promete", etc.
Tudo é profundamente triste, sinto muito. "Se os pais fossem
educados, gerariam filhos educados" Esta é uma sentença dum moralista.
É um verso de Goethe.
A sra. não gosta de crianças barulhentas, "infantis". Adora o
ar de madureza que sua garotinha ostenta, o seu jeitinho de manter a cabeça erguida e
ligeiramente inclinada para a esquerda, o seu preciosismo, sei lá o que mais, e veste-a com
miniaturas dos seus próprios vestidos, com cópias dos seus pijamas, da sua camisola, do seu
"tailleur".
Mas o que na realidade acontece é que a sra. adora a si própria, e o seu narcisismo é
tamanho que lhe impõe "ver-se" na sua própria filha. A sra. se
enternece como se estivesse vendo a si mesma: daí ter transformado a sua menina numa cópia
viva da sua própria pessoa, incutindo-lhe todos os seus defeitos, o seu dengo, o seu ar
de gata de alta linhagem que não dá muita "bola" a quem que que seja.
E cortando na vida de sua filha todas as expansões próprias à sua fase
infantil, lhe está a sra. impondo uma falsa maturidade, violentando a natureza e
tentando artificialmente suprir aquilo que só o tempo pode fazer.
As conseqüências dessa sua errada atitude não tardarão a aparecer.
Então dirá a sra. que sua filhinha "também" sofre dos nervos, que tal como a sra.
é nervosíssima, (..."é uma pilha"!) e, como a sra. ela terá então o "seu"
médico, e tudo caminhará na forma da rotina.
Escute aqui: reeducá-la aos 35 anos vai ser muito difícil, e muito mais ainda porque
a sra. não deseja reeducar-se. Não, isto não é uma "manie de perfection"
(não é de todo mau o seu francês...) o que, como extremo oposto, seria igualmente condenável.
Mas com a sra. tudo tem que ser 8 ou 80? Não existe uma
maneira de afastá-la do exagêro que cerca sempre todas as suas decisões? Pare
com a deformação que vem operando com sua filha. Não que as coisas se
modifiquem, logo em seguida. Acho mesmo que a sra. estragou definitivamente
a criança.
Pode-se entretanto, tentar atenuar o mal que já foi feito. Leve-a a um
Jardim da Infância, promova a aproximação com outras meninas, dê-lhe brinquedos próprios à
sua idade e, pouco a pouco, quem sabe?, pode ser que a situação se corrija. Se
não pode passar sem as suas reuniões costumeiras, onde a vida alheia e as torradas com chá
tem largo consumo, continue a promovê-las.
Evite, no entanto, que a sua filha assista o massacre das reputações, os comentários
maliciosos, e não pronuncie, na sua presença, as suas costumeiras frases dúbias ou a última
criação da gíria carioca. Considere que seu dever é educar sua filha.
E isto que vem fazendo não é educar.
Não, a sra. não foi também educada, e tudo é tão artificial na sua própria personalidade
que lhe parece absurdo ser natural, simples e espontânea. Mas se o amor de
mãe ainda existe em seu coração, então reflita que deve colocar o destino da sua filha
acima do seu e fazer por ela o que seus pais, infelizmente, não fizeram por você.
Fonte: Prof. Gonçalves Fernandes
Da Faculdade de Ciências Médicas - Chefe da Seção da Ortofrenia e Higiene Mental do
Depto. de Saúde Pública de Pernambuco.
Para a Revista do Ensino - Porto Alegre - Brasil.