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    O Dia das Dúvidas


    Autor: Alberto Grimm[1]



    Tudo começou quando alguém teve a idéia de criar uma nova data comemorativa, que foi chamada de “o Dia da Personalidade Livre”. Nesse dia, todos colocariam capuzes sobre suas cabeças, e poderiam fingir ser aquilo que nunca foram. Qualquer um poderia se transformar no personagem que quisesse interpretar, e o melhor desempenho, lógico, ganharia um prêmio, cujo nome era, o Troféu da Hipocrisia. Claro, que este prêmio logo foi incorporado ao cotidiano de todos. Já fazia parte da tradição, e já na escola, todos eram orientados para um dia interpretarem o papel das suas vidas.
    Como fazia parte das tradições, era uma brincadeira corrente, e as escolas organizavam seus próprios campeonatos. E a coisa se estendeu para todos os segmentos da sociedade, pois aquela brincadeira mexia com a imaginação das pessoas: Imagine um dia inteiro fingindo ser aquilo que não somos. Era no mínimo divertido, por isso era considerado por todos, uma brincadeira. Mas, com o tempo, a brincadeira se descaracteriza um pouco, pois algumas pessoas gostaram tanto de interpretar um falso papel, de fingir ser outra pessoa, que passaram mesmo a agir daquela forma em seu dia a dia. Por isso, criou-se um comitê organizador, com o intuito de criar regras específicas para a atividade.

    O problema do comitê era que dentro da sociedade, as pessoas, agora mudavam de comportamento todos os dias. De tanto brincar de interpretarem falsos personagens, haviam assumido de vez a postura em suas atividades diárias, e criavam novos a cada instante. Assim, ficava difícil separar a vida real da brincadeira em si. Então, por unanimidade eles resolveram instituir, que a partir daquele dia, a brincadeira deveria ser; não mais o fingir ser um alguém que não se era; mas interpretar aquele que realmente verdadeiramente se era.

    E quem sabia mais quem era quem ou o quê? De tanto fingirem ser diferentes personagens, eles próprios, de muito tempo, já não sabiam sequer se um dia possuíram uma personalidade original. Assim, a questão era: Como vamos saber se estamos de fato interpretando nós mesmos? Nem o comitê sabia dizer como. E os membros do comitê argumentaram: “Vocês pediram para criarmos as regras de uma nova brincadeira, e assim foi feito. Mas como vamos explicar uma coisa que também não sabemos?”. Foram convincentes e definitivos; ninguém sabia mesmo como.

    Quem poderia saber o que originariamente era cada pessoa? Essa era a pergunta corrente, estampada nas páginas de todos os jornais e revistas; chamada principal de todos os telejornais; assunto ruidoso de todas as comunidades virtuais, assunto principal da pauta de todas as instituições. Se todos passavam a vida a fingir aquilo que não eram, como saber o que realmente eram? Será que haveria como saber isso um dia? E logo surgiram as escolas, em cuja pauta de ensino estava incluído o que chamaram de, O Estudo de Si Mesmo. Ora, mas o estudo de si mesmo que elas ensinavam, no final, ensinava o aluno a ser um novo personagem, diferente de todos aqueles que um dia já fora, o que dava no mesmo.

    E alguém, que logo passou a ser considerado um grande sábio, sugeriu que a personalidade original de cada um, era aquela de quando eram crianças. E tome mais questões sem respostas. Mas como é ser como criança; era a pergunta. O sábio, por sua vez argumentou: “Eu tive a idéia; agora é necessário que formemos uma comissão organizadora, para ampliarmos essa idéia, e para criarmos as regras de como é voltar a ser criança”. Feito isso, foi levantada a seguinte questão: “Mas, essa criança que aprenderemos a ser; como vamos saber se ela de fato, éramos nós mesmos na nossa infância, ou apenas uma criança padrão, igual a todas as outras?”. “Boa questão”, admitiram os líderes da comissão; “Mas resposta que é bom, isso não temos. Vamos criar outra comissão, para ver se chegamos a algum consenso?”.

    E aquele debate de nada adiantaria ficar com a população, pois isso para ela não faria a menor diferença. O fato era que todos fingiam o tempo todo, ser aquilo que não eram; e se todos já conviviam com essa realidade como coisa natural, qual era então o problema? “Se podemos ser qualquer um, por que deveríamos nos conformar em sermos apenas um? Isso não seria um grande retrocesso em nossas vidas? Certamente que sairíamos perdendo, pois deixaremos de ser muitos, para sermos poucos? Em minhas contas, muito é mais que pouco; assim, é melhor não mexer em time que está ganhando.”, argumentara a população num só e grande coro.

    Disserem os membros do comitê: “Meus amigos; a questão não é essa. Não deixaremos de ser como somos. Continuaremos sim, a ter nossas várias personalidades, uma para cada hora do dia, ou da noite, ou seja lá o que for; a questão é que precisamos criar as regras para a nova brincadeira, lembram-se? É apenas uma brincadeira, onde todos terão um dia no ano, onde deverão tentar interpretar sua personalidade original. Se seremos ou não capazes de fazer isso, eis o problema.”. Todos respiraram aliviados, com a certeza de que não precisariam mudar, nem deixar de serem contraditórios; e saíram da reunião aliviados com a promessa de que poderiam continuar exercendo a hipocrisia como um modelo sensato de vida. “Assim, vocês nos deixam de fato aliviados.”, suspiraram todos.

    Em busca de uma idéia guia para criar o estatuto oficial da brincadeira, alguém questionou: “E se admitirmos que nunca tivemos uma natureza original, que nenhuma dessas personalidades que já tivemos ou fomos, pode ser ela?”. A questão é claro, foi levada para ser debatida ante a câmara dos sábios. Disseram os sábios: “Considerando que não temos como saber se um dia tivemos uma personalidade original; podemos então definir que nenhuma delas, por si só, é capaz de nos representar de fato; mas, todas elas, em conjunto, sim”. Era um fato novo, que levava a uma profunda reflexão, mas o problema de definir as regras da nova brincadeira não estava solucionado.

    Então um dos membros do comitê, despertando de um cochilo que tirara durante a reunião, tomado de um grande susto quando alguém se chocou acidentalmente com sua cadeira, balbuciou algumas palavras desconexas e sem sentido, que para o seu vizinho de poltrona dizia: “E se a brincadeira se chamasse o Dia da Dúvida, ao invés da Personalidade Original?”. Pronto, estava resolvida a questão. Todos o cercaram tentando fazê-lo explicar os detalhes da nova brincadeira; mas ele sequer lembrava que tinha falado alguma coisa, o que dirá explicar as regras. Mas como era naquela sala que as regras eram criadas, se acomodaram em seus lugares, e finalmente definiram como seria comemorada a nova data.

    No Dia da Dúvida, cada pessoa deveria fingir que tinha pelo menos uma dúvida. Podia ser sobre qualquer coisa, o importante era ter uma. Ao final do dia avaliariam suas dúvidas, e depois esqueceriam tudo, e seguiriam seu ritmo de vida normal. Mas, a exemplo da brincadeira das falsas personalidades, logo as dúvidas que eram criadas durante aquele dia comemorativo, se transformavam em dúvidas reais, e logo no lançamento da brincadeira, na primeira vez, a questão que mexeu com todos foi: “Como saber qual é a nossa verdadeira personalidade?”.





    Autor: Alberto Grimm
    Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
    email: alberto.grimm@gmail.com




    Notas:

    [1] Alberto Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
    Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.



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