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    O Efeito


    Autor: Alberto Grimm[1]



    Aquela civilização chegara ao ponto máximo do seu desenvolvimento. Seus cientistas aprenderam finalmente a fabricar alimentos a partir de partículas tiradas do próprio ar. Mas como poucas áreas com oxigênio limpo ainda estavam disponíveis no planeta, os alimentos fabricados a partir de ar poluído, o mais comum, foram chamados de alimentos transgênicos. Já a pequena parcela que podia ser fabricada a partir de ar puro, chamaram de orgânicos. Estes eram considerados alimentos nobres, e por isso mesmo, por serem produzidos em pequenas quantidades, eram caros, reservado então aos nobres e ricos. Devido às restrições na produção em massa dos orgânicos, produzidos a partir do ar limpo, as indústrias se viravam como podiam para atender a imensa população faminta. Assim, criaram aditivos químicos, que eram capazes de atenuar os efeitos nocivos do ar poluído na produção de alimentos, e a estes chamaram de conservantes, ou simplesmente aditivos.
    Mas a indústria alimentícia progredira bastante, e o lixo residencial ou industrial, deixara de ser problema ambiental há muito tempo. O próprio governo veiculava nos meios de comunicação em massa, e idéia de que povo civilizado é povo que produz muito lixo, e havia mesmo uma campanha, onde os maiores produtores de lixo, seriam contemplados com alguns benefícios especiais. Assim, a própria indústria também estava encarregada de facilitar à criação cada vez maior de lixo. Como a produção de lixo passara a ser uma coisa séria, o próprio conceito de status social, mudara radicalmente. Bem sucedido era aquele capaz de produzir mais lixo, e aquele que em sua casa vivesse cercado de lixo, estava no topo da pirâmide social. Nasce assim a indústria não apenas encarregada de fabricar descartáveis que logo se tornariam lixo, mas surge um novo padrão de qualidade, que logo se tornaria o referencial de bom desempenho para o setor; que era, quanto pior a qualidade daquilo que se produz, melhor para a sociedade.

    Assim, contribuindo com a campanha do governo, e disposta a incentivar a criação de mais lixo para salvar a humanidade da fome, a indústria cria o conceito de produtos descartáveis de rápida duração. E a cada semestre, os empresários cujas companhias se destacassem mais na produção de produtos descartáveis, eram agraciados com um troféu, que rapidamente se tornara o mais cobiçado do meio empresarial. E as escolas e faculdades se vangloriavam, e se promoviam exibindo em destaque na imprensa, os nomes de ex-alunos que se tornaram campeões na produção de lixo. Eram escolas e faculdades de referência, cujas vagas eram disputadas de forma acirrada pelos aspirantes a se tornarem bem sucedidos empresários produtores de lixo de má qualidade.

    As empresas encarregadas de criar as campanhas publicitárias para motivar o consumo rápido de qualquer coisa que se produzisse, logo viu a necessidade de uma motivação permanente para isso. Assim, de comum acordo com os governos, grupos sociais e empresários, criaram um calendário de grandes e importantes eventos sociais, que deveriam ser comemorados por toda sociedade, durante o ano inteiro. E nunca se consumiu tantas coisas descartáveis, tanto, que a própria indústria encarrega de reciclar o lixo para transformá-lo em alimento, se viu de repente saturada pelo excesso do mesmo. Diante desse problema, logo o governo resolver intervir para evitar o caos social. Assim, criou um departamento encarregado de comprar o excesso de lixo produzido e estoca-lo em silos especiais, e a isso ele chamou de, estoques de segurança ou emergenciais; uma precaução para uma eventual crise de abastecimento, de lixo, no futuro. Estava assim resolvido o problema da produção excessiva de lixo. Como lixo não estraga, podia ficar armazenado para sempre.

    Os descartáveis foram então trocados pelos substituíveis. Assim, ao invés de produzirem objetos com data marcada para se transformarem em lixo, criaram o conceito de objetos que precisavam ser trocados de tempos em tempos. Com o acirramento da concorrência em busca de se destacar naquele mercado competitivo e vender sempre mais, logo a necessidade de trocar um modelo antigo pelo mais recente, tornou-se uma prática que mais parecia com a época dos descartáveis.

    Logo surgiria um problema difícil de resolver. Como um dos fatores que mais incentivos recebera para produção de lixo mundial de má qualidade, fora a da produção de itens não biodegradáveis, o que era a principal característica dos descartáveis, sempre procurando ajudar a produzir mais meios para justificar a produção de mais lixo; uma maciça campanha promovida por grandes corporações, e com o apoio de todos os governos foi deflagrada. Incentivariam o aumento da natalidade, o que justificaria a produção de milhões de fraldas descartáveis, e uma certeza de muito lixo de má qualidade produzido. Resultado, a população mundial cresceu demais, o meio ambiente se sujou demais, e agora o homem tinha diante de sim um problema sem precedentes.

    Embora fosse capaz de produzir alimentos, ou qualquer bem descartável a partir do ar, e do lixo, não eram capazes de produzir água da mesma fonte. Aliás, a água sempre fora o principal ingrediente que usaram para produzir todo o resto. Resultado, as fontes de águas potáveis secaram; os mares de tanto serem desalinizados para compensar a falta de água, estavam à beira da exaustão. Vida marinha já desde muito tempo era apenas uma referência na história das antigas civilizações. Assim, mesmo com todo progresso que haviam alcançado, mesmo com toda tecnologia disponível, o homem não fora capaz de resolver um antigo e crônico problema da sua natureza, a ganância, e a violência que há por trás desse aspecto. Por isso mesmo, a escassez de água logo criou outro problema: Quem vai controlar o que resta, quem tem mais direito de posse sobre esse precioso bem? Simples, aquele que pode mais, aquele que tem mais poder bélico.

    E logo o dinheiro perderia seu valor, pois de nada adiantava tê-lo, ou ser capaz de ganhá-lo, se nada havia para fazer com ele. Sendo água o bem mais precioso sobre a terra, tudo o mais perdera seu valor. Riquezas para nada mais servia; e o mundo civil, competia entre si pelo direito de ter água. Como o dinheiro não mais era capaz de comprá-la, a guerra entre as populações fora inevitável. Era uma questão de sobrevivência. Era rico quem possuía uma fonte de água, e logo exércitos dispostos a qualquer coisa para proteger essas reservas, foram criados. Combatiam em troca de água, e o ser humano se tornara de vez, o animal irracional que por toda vida tentara ocultar vestindo belas roupas e clamando seus deuses.

    E como todos queriam a mesma coisa, o entendimento que antes existia por terem o objetivo comum de entupir o mesmo mundo de lixo, agora se transformara em um conflito irreversível, um antagonismo que culminaria com a última guerra mundial. Fora uma destruição total. Mas fora lenta e brutal para os sobreviventes que se refugiaram em abrigos secretos; e no final, passados milhares de anos, uma nova civilização era a raça dominante. Surgira há muitos anos atrás, pois desde sempre haviam se tornado resistentes aos efeitos da radiação nuclear; radiação essa que fora a última herança deixada pelo homem sobre a terra. Se a princípio eram poucos seres, logo, sem inimigos naturais para temerem, se tornaram a raça dominante. Surgia assim a civilização das baratas mutantes, mais resistentes, com uma capacidade de sobreviver em ambientes inóspitos, superior a todas as raças precedentes.

    AGORA, passados milhões de anos, nós as baratas mutantes, finalmente adquirimos, além do dom de falar, inteligência, e já podemos relatar esse épico da história da nossa civilização. É isso que faço nesse momento.





    Autor: Alberto Grimm
    Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
    email: alberto.grimm@gmail.com




    Notas:

    [1] Alberto Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
    Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.



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