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Um Estranho Pesadelo
"A imaginação será para sempre o oposto da realidade."
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Naquele dia, ao acordar, antes de abrir os olhos, ele permaneceu quieto, imóvel por algum tempo, tentando ouvir algum barulho dentro da casa. Escutou o latido de um cachorro ao longe, depois como que respondendo ao chamado do primeiro, outro, depois outro, depois uma pausa. Ainda devia ser noite, pensou, pois cachorro só latia daquela maneira à noite. Continuou ouvindo e depois tudo ficou quieto outra vez. Ouviu o barulho de um carro vindo de algum lugar, e depois apenas o silêncio, daquilo que ao seu ver ainda era noite.
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Mantinha os olhos fechados para ver se ainda lembrava do sonho que tivera. Fora um pesadelo e tanto. Sonhou que estava num lugar, onde todas as coisas eram de uma cor apenas. As casas, o céu, a água, os habitantes, os objetos, enfim tudo de uma só cor, verde. A noite era verde, o dia era de um verde mais claro que o verde da noite; as nuvens eram verdes. Ficara apavorado no sonho, pois não conseguia lembrar como eram as outras cores, apesar de ter o nome de todas na memória. Foi terrível lembrava agora.
Então, ao abrir os olhos, percebeu que estava tudo escuro. Arregalou bem os olhos e olhou em volta, em busca de pelo menos um vestígio de luz, qualquer coisa que fosse, mas não conseguia ver nada. Seu coração deu um sobressalto, será que ficara cego? Aproximou bem as mãos, à altura dos olhos, e nada, apenas a escuridão é o que conseguia ver. Levantou da cama e saiu tateando pelo quarto em busca da janela. Depois de esbarrar em quase tudo que havia lá dentro, finalmente a encontrou e a abriu. Mas para sua surpresa, lá fora também estava tudo na mais completa escuridão. Apurou bem os ouvidos, e nesse momento conseguia escutar vozes baixinhas de pessoas que passavam na rua. Se esforçou ao máximo para enxergar algum ponto de luminosidade, qualquer coisinha que fosse, e nada.
Não havia outra resposta, ele com absoluta certeza, por alguma razão misteriosa, sem aviso prévio ou sintoma, ficara cego, só podia ser isso. Fechou a janela e tateando no escuro voltou para a cama. Talvez aquilo fizesse parte do seu pesadelo, do sonho do mundo verde, uma espécie de segunda parte, uma continuação já que quase tudo tem continuação, bem que podia ser isso. Quem sabe se aquilo, dentro daquele mundo verde não era, por exemplo, uma espécie de noite. Mas, e se não fosse? E se tudo aquilo fosse real?
Começou a imaginar um monte de coisas possíveis, se não conseguisse mais enxergar. Se estivesse cego, não mais conseguiria assistir televisão, nem ler quadrinhos. E as cores, nunca veria nenhuma delas, nem as plantas, nem as pessoas, nem a chuva, nem o que não presta, nem o que presta, nada, nadinha. Ficou horrorizado com a idéia. Poderia pegar nas coisas, e imaginar o que eram apenas com a lembrança que teria de cada uma delas. Mas e se fossem de cores diferentes daquelas da sua lembrança? Isso nunca mais poderia ver.
Mas aquilo podia ser um eclipse, o maior de todos os tempos. Um eclipse tão poderoso, que afetara até as lâmpadas elétricas da terra. Lembrou que possuía uma lanterna em seu armário, o problema era achar o armário. Achando o armário e a lanterna, se conseguisse acender sua luz, e se conseguisse enxergar sua luminosidade, pronto, estaria salvo. De repente ficou confuso diante de tantas possibilidades, e a que menos o agradava, era aquela de ter ficado cego. Seus amigos ficariam velhos e ele não conseguiria ver isso, para ele, todos teriam o mesmo rosto pelo resto da vida. Teriam sempre a cara de meninos, seriam velhos com rostos de crianças.
Essa idéia lhe pareceu assustadora e estranha. E os modelos novos de carros, e de qualquer coisa, seriam para ele, todos antigos, iguais aos últimos que vira antes de ficar cego. Se não tivesse mesmo jeito, se aquilo fosse real, pelo menos restava um consolo, ninguém envelheceria em seu pensamento, nada mais ficaria velho ou se acabaria. Mas também não haveria futuro algum, pois esse seria sempre o mesmo, pois com a ausência de novas imagens, seria para sempre igual ao seu passado.
No escuro absoluto, vagueou em busca de pistas que o levassem até o armário. Ficou imaginando que, se de repente a luz voltasse, deveria ficar surpreso com o estado do seu quarto, pois certamente que tudo estaria revirado. Ao chegar no armário, ele descobre que a porta está trancada e que não lembra onde está a chave; talvez no meio da bagunça do quarto. Então ele começa a forçar a porta tentando arrombá-la e nesse momento, escuta alguém batendo à porta do seu quarto.
Erguendo a cabeça para escutar melhor, ele tenta se dirigir para a porta, guiado pelo barulho. Por sorte a chave está na fechadura e ele então a abre. É sua mãe, dá para saber pela voz, pois não consegue ver nada. Ele está trêmulo e se abraça com aquela que parece ser sua mãe, isso a julgar pela voz. Mas, e se fosse alguém imitando sua voz para enganá-lo no escuro? Afastou-se assustado tropeçou em alguma coisa, e caiu no chão.
Sua cabeça bateu com força em algo duro e então ele percebeu que, definitivamente aquilo era real. Abriu o maior berreiro de sua vida, e então percebe que com sua mãe tem mais alguém, e pela voz é outra mulher. Ele sente que ambas o seguram pelos braços, e a outra mulher que a acompanha exclama: “Nossa, o quarto está uma bagunça!”
Ao que sua mãe comenta: “Na semana passada ele inventou de colocar óculos de lente verde, e passou o dia inteiro, dizendo que estava vendo tudo verde. Agora, de vez em quando, sempre que inventa de dormir com o meu protetor de olhos, acorda assim, esquece que o está usando, e faz esse alvoroço todo...”.
Autor: Alberto Grimm
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
email: alberto.grimm@gmail.com
Notas:
[1]
Alberto Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.
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