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Dúvidas Existenciais
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Achei estranha a reação daquele garoto quando me viu. De repente, minha mãe me segurou pelo braço e me puxou para dentro de casa. Fiquei sem entender direito aquela reação que ele tivera. Ele simplesmente pegou o chinelo e veio em minha direção com um olhar malicioso, logo eu que estava sorrindo para ele. Sem questionar entrei com minha mãe em casa. Normalmente achamos que nossos pais sabem o que estão fazendo, ou dizendo. Isso talvez aconteça porque nunca nos dizem o “porque” das coisas; nem porque devemos obedecer, e nem nós nos importamos de perguntar. Assim obedecemos porque achamos que eles sabem o que estão fazendo. Ainda fiquei a olhar pela brecha da porta, para ver se conhecia o garoto, mas ele também estava com sua mãe, e ela que parecia bastante brava, o arrastou pelo braço, e foram embora. Ainda escutei ela dizer: “Vai brincar com o que não presta, acaba pegando doença...”.
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Com o tempo a gente acaba aprendendo, que aquilo que as pessoas falam, quase nunca é o que realmente pretendiam dizer. Explico; quando nossa mãe diz, “isso é problema seu”, na verdade isso quer dizer que aquilo é tão perigoso que vamos nos arrepender duplamente. Primeiramente com as conseqüências do ato praticado, que se reverterá contra nós, e em segundo lugar, com o castigo que certamente ela nos dará, porque tinha nos alertado. Como ainda era cedo, pedi para ir dar uma volta no quintal, antes de ir para a escola. Com um resmungo ela consentiu. Nossas mães agem dessa forma, quando querem dizer “sim”, resmungam, quando querem dizer “não”, dizem não. E fui dar uma volta no quintal. Fazia isso todas as manhãs, antes de ir para escola. Era uma oportunidade de contemplar o vazio, de perguntar a mim mesmo, quem somos nós e qual o real objetivo da vida; de ver os pássaros voando ao longe, de imaginar o que é ser livre.
Era dia do folclore na escola, e nossa professora havia preparado uma festinha, onde alguns alunos iram representar uma peça teatral. Era uma professora que se interessava mais pelas festas, que pelas aulas em si. E sua aula era sempre assim, quase um ritual, como uma máquina a repetir um padrão operacional. Depois de fazer a chamada, sem sequer olhar para os alunos, ela se levantava toda animada e dizia, “vamos cantar!”.Nada tenho contra a música, mas agüentar aquilo era uma verdadeira penitência, pois ela sempre cantava a mesma coisa, e bastava que alguém não demonstrasse contentamento, e ela já dizia: “Não, não; aqui não é lugar de gente triste...”, e pegava no braço da vítima e cantava com ela, arrastando-a como um boneco sem vontade, pelo meio da sala. Era uma atitude tão artificial, quanto ela inteira parecia ser. Além de ter que aturar aquela chatice, ainda tínhamos
que sorrir para fingir contentamento. Parece que fingir é considerado uma coisa mais natural que a verdade, pois ninguém em seu juízo perfeito, coisa que ela definitivamente não possuía, gostava daquilo, que ela acompanhava como se estivesse regendo uma orquestra.
Como ela costumava cantar, a mesma coisa, na entrada e na saída; vez por outra, se distraia, e depois de cantar para a entrada, achava que já era a hora da saída e dispensava a turma. Os alunos é claro, todos saiam correndo, sem dar tempo dela se recuperar, de se lembrar, de que ainda não era a hora de largar. Quando ela se dava conta do erro, só conseguia fazer metade deles voltar para sala, o resto já estava longe. Meu amigo Canelinha, até já tinha um plano para induzi-la ao erro. Como ele sentava na primeira fila, ao invés de desarrumar a bolsa, o que era normal no início da aula, ele começava a arrumá-la; guardava os cadernos, o livro, e olhava para ela sorrindo. Na maioria das vezes, ela se distraia, e ao cantar já dispensava a turma achando que era hora de sair. Então um dia, tomada de um estranho acesso de clareza, ela percebeu a manobra e colocou-o na última fila, lá atrás de todos.
Na peça de teatro que ela organizara, o tema escolhido fora, A Origem da Vida através do Folclore. A peça era o seguinte: Os alunos, vestidos como personagens folclóricos, iriam contar a origem da vida na terra, e ela mesma havia feito o roteiro da peça. Na versão dela, eu ia representar o secretário do Criador. Aliás, a escolha dos papéis foi uma novela à parte, pois todos, exceto eu que só queria ficar sossegado no meu canto, queriam o papel do criador. Na história dela, o Criador era uma menina, e seus argumentos foram decisivos. Homem não dá à luz, homem não cuida dos filhos, logo não cria nem cuida de nada; isso quer dizer que a mulher se presta melhor a esse papel, ponto final. Pensando bem, até que ela estava certa, pois fechando os olhos e pensando nos meus pais, só consigo ver o rosto de minha mãe cuidando de mim.
A filha do diretor da escola, por motivo de interesse maior, foi a escolhida para o papel principal. E logo na manhã seguinte, ela reuniu seu grupo no pátio da escola e começaram a ensaiar. Como secretário do Criador eu tinha que participar. “Mas o que o secretário do Criador faz?”, eu perguntei à professora. Ela disse: “O Criador cria, e o secretário anota o que ele criou para que não esqueça depois. Imagine, quando ele criar todas as variedades de seres vivos, plantas e animais, há de esquecer alguma, aí, entra o secretário lembrando a ele, para não criar duas vezes a mesma coisa...”. Brilhante sua explicação, tanto que levei a coisa a sério. E logo no primeiro ensaio, a atriz representando o Criador, chegou acompanhada dos pais, dos tios, dos primos, tanta gente que quase não sobrava espaço para os atores.
Tinha até trilha sonora, “Coelhinho da Páscoa”, em versão clássica. E a cena toda era assim: Ela, a Criadora, deveria sair de uma caverna, com uma varinha de condão da mão, e dizer o seguinte texto: “Hoje me senti só, vou criar todo mundo, abracadabra...”. Nesse momento, alguém estouraria um balão, e aquele barulho indicaria o início da criação. Canelinha, meu amigo, que ficara encarregado dos efeitos especiais, iria estourar o balão. Então, estourado o balão, vários figurantes entrariam em cena andando em círculos, cada um caracterizando um animal, e outros os vegetais. Tudo pronto para o primeiro ensaio, e a Criadora entra em cena.
Primeiro ela sai da caverna, olha em volta como se procurasse alguma coisa dentre os espectadores; dá uma última arrumada na roupa e confere se o cabelo ou a cabeça está no lugar, tira uma folha de papel do bolso da saia, ainda passa uma derradeira vista no texto, sempre resmungando para dizer que está lendo, guarda-o outra vez no bolso e diz: “Hoje acordei com vontade de ir ao shopping, mas como ainda não existe nada, preciso criar tudo. Ai, ai; essa vida de Criadora me cansa... Que tudo seja criado ao meu comando...”, girou a varinha e acrescentou: “Shazan!”..
Houve uma espécie de silêncio entre os participantes, já que aquilo não fazia parte do texto original; mas ninguém ousava falar nada. Antes que alguém abrisse a boca para dizer alguma coisa, toda comitiva que ela trouxera para o ensaio, a aplaudiu de pé; e por uma questão de impulso, tomados de uma espécie de indução mecânica, e para não se sentirem diferentes, os demais espectadores fizeram o mesmo; assim ficou como estava já que todos haviam gostado.
Como o texto não era igual ao combinado, Canelinha, o encarregado de estourar o balão, simulando o som da criação, não fez a sua parte. Alheia a tudo isso, e cochichando no ouvido do pai da atriz, que era o diretor da escola, a professora disse: “Que menina criativa; levou tão a sério o papel de Criador que até resolveu Criar o seu próprio texto...”, e percebendo que faltava alguma coisa, voltou-se para o elenco, e aos gritos disse: “Cadê o som da criação?”, ela se referia ao balão que não estourara..
E Canelinha, que sempre levava as coisas a sério, ao invés do balão, resolveu usar uma bomba que ele mesmo fizera em casa. Ele dissera antes: “Todos vão ter uma surpresa com a minha criatividade. Acho mesmo que nasci para criar efeitos especiais...”. E ele explode a bomba. E com todos surdos e desorientados com o barulho, os ensaios foram suspensos. Mas, o pior aconteceu com ele; perdeu sua cauda, que ficou se debatendo pelo palco improvisado como se estivesse levando choques elétricos, até se perder numa fresta da madeira, enquanto ele observava chorando. Logo os paramédicos o tranqüilizaram: “Não se preocupe, nós as lagartixas, temos uma capacidade de regeneração surpreendente. Em algumas semanas você estará bem, com uma caudinha nova em folha. É só manter uma dieta rica em mosquitos”. E ele justificou seu ato dizendo: “O barulho de uma criação, tinha que ser um Big-Bang”.
Autor: Alberto Grimm
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
email: alberto.grimm@gmail.com
Notas:
[1]
Alberto Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.
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