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    Razão Social: Grandes Empreendimentos Ambientais


    Autor: Alberto Grimm[1]



    A idéia era simples: Se o problema era mundial, por que não juntar esforços para resolver em conjunto tal questão? Não se tratava de um problema de uma ou outra nação, ou cidadão, ou etnia, ou partido político, mas de todos. E alguém questionou por que, ao invés de cada um ter um espaço apenas para o seu, muitas vezes um espaço que poderia ser utilizado para “coisas mais nobres”, não se usava uma área de inutilidade pública comum para centralizar tudo.
    “E O que você entende por espaço de inutilidade pública comum?”, logo questionou um dos presentes ao debate.

    “Que utilidade tem um imenso deserto, por natureza deserto, onde a única coisa visível é poeira, e cujo único papel aparente é servir de cenário para fotógrafos e produtores de filmes quando desejam retratar a suposta paisagem de outro planeta?”

    “As nações envolvidas no consórcio, pagariam ao país dono do deserto, uma espécie de taxa de permanência, ou alocação da área, e todos sairiam ganhando; primeiro as nações inquilinas que se livrariam dos seus problemas, e a nação hospedeira, que finalmente poderia obter algum lucro daquele espaço sem nenhuma utilidade...”, concluiu seu argumento.

    Era sem dúvida uma idéia tentadora, perfeita demais para ser realidade, por isso todos, deixando de lado as vaidades pessoais daqueles que desejam ter sua própria opinião aprovada, reverenciada, louvada, por falta de melhor alternativa, aprovaram o projeto.

    O problema era que, o acúmulo de lixo nas grandes cidades, mesmo depois das maciças campanhas de reciclagem, de reutilização de todos os tipos de resíduos, tornara-se uma calamidade. Afinal, uma hiper-população, produzindo toneladas de lixo por dia; e havia o lixo do lixo, a sobra dos resíduos reciclados, a ponto de se criarem verdadeiras cidades apenas para guardar lixo. Ocorre que o lixo ocupava áreas maiores que as grandes cidades, espaço precioso que poderia ser ocupado com, por exemplo, novas cidades, repletas de compradores em potencial.

    Por isso o lixo tornara-se o principal problema do mundo moderno, já que ninguém, nenhuma sociedade poderia viver sem fabricar “coisas” para vender, uma vez que aquele ciclo de fabricar e vender era o único motivo coerente que justificava a existência humana sobre o planeta. Imagine, pensavam todos, um mundo onde ninguém fabrica e ninguém compra alguma coisa? Seria o pior pesadelo dentro da cadeia existencial do homem.

    Desse modo, a idéia de centralizar todos os lixos do mundo num só lugar foi tão bem recebida. O deserto era o local perfeito. Tratava-se de uma área enorme, suficiente para muito lixo, o que daria grande liberdade para os fabricantes e compradores de bugigangas exercitarem ao máximo seus impulsos existenciais.

    Seria então criado um governo central para administrar a nova Nação, e cada grande cidade produtora de lixo, se encarregaria de transportar para o novo destino todos os seus resíduos. Isso sem dúvida seria a solução para muitos problemas, e certamente que criaria uma nova economia globalizada baseada inteiramente no lixo. Fábricas de reprocessamento, usinas de energia, produtos recicláveis de todos os tipos, e tantas outras, tudo baseado no lixo. Era sem dúvida de um potencial avassalador, a perder de vista em resultados econômicos, mesmo pelos mais capazes calculistas.


    Imaginar uma Nação sem lixo, é o mesmo que imaginar uma mentira sem autor...
    Como a estrutura da organização foi concebida é outra história, mas a coisa acabou finalmente sendo feita. E prosperou, e o deserto logo se tornaria um espaço dos mais cobiçados, dos mais caros e valorizados do mundo, a ponto de grandes nações incentivarem a degradação dos seus ambientes apenas com a intenção de criar seus próprios desertos regionais. E a grande “nação lixo”, que recebeu o apelido de Província dos Grandes Empreendimentos Ambientais, logo se tornou próspera, populosa, com muitas indústrias, tanto que, o lixo outra vez se tornara um problema. Mas, dessa vez, não porque era um incômodo, e sim porque, com o aumento da demanda da matéria prima lixo, o lixo, se tornara uma mercadoria valiosa demais, comercializada nas bolsas de valores, sujeita à grandes especulações.
    Tudo era então feito de lixo, até o próprio lixo. Assim criaram-se organizações para classificar o lixo de acordo com sua qualidade. E havia o lixo que resistia mais à degradação, era o lixo modificado geneticamente, e assim por diante.

    Então, surgiu um problema que ninguém, em seu juízo perfeito, jamais poderia supor que um dia ocorreria. Com a crescente demanda por cada vez mais lixo, começa a faltar lixo no mundo. E logo, preocupados com o problema, as grandes nações promovem campanhas maciças para que as pessoas produzam mais lixo, e como nem isso resolve, as indústrias passam a fabricar, não objetos e produtos que um dia se tornarão lixo, mas o próprio lixo em si.

    E das linhas de produção, o lixo é produzido agora em massa. E novas campanhas incentivando empresas e pessoas a produzirem mais e mais degradação ambiental, ações que se reverterão depois na produção de mais lixo, são lançadas. Assim, poluir e sujar torna-se uma qualidade desejável, um fator que dá status às nações. E em meio a tanto lixo, comprar, não mais um produto que um dia, pela obsolescência se tornaria lixo, mas o lixo produzido pelas grandes indústrias, se tornou uma necessidade humana, um fator de status social diferenciado. Era algo capaz de conferir ao cidadão comum o desejado título de “Degradador Honorário da Humanidade”, uma honra com direito a referência nos livros de história, uma qualificação que logo se tornaria o objetivo de vida, a religião, a razão existencial desse novo homem.





    Autor: Alberto Grimm
    Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
    email: alberto.grimm@gmail.com




    Notas:

    [1] Alberto Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
    Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.





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