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    Um Estranho Fenômeno


    Autor: Alberto Grimm[1]



    Os primeiros a presenciarem o fenômeno foram as crianças. Brincando no pátio da escola, de repente viram que o chão tremia, e mais ainda, das profundezas vinha um barulho estranho, como uma imensa pedra rolando ladeira abaixo, como o som de um grande trovão. E algumas espantadas, já que eram muito pequenas, ainda pronunciando as primeiras palavras, balbuciavam: “Tuu-pan, tuu-pan...”, que era o barulho que fazia um pequeno trem de brinquedo muito popular entre eles. E enquanto empurravam o trenzinho, este emitia um barulho simulando o ruído do motor. E fazia “Tuu-pan, tuu-pan”, numa batidinha sempre regular, como um pedaço de pau se chocando contra outro.
    O fato é que logo a coisa ficou conhecida por esse nome. E logo os mais velhos trataram de analisar a questão. O pátio ficou interditado naqueles dias, enquanto o conselho de anciãos se reunia para estudar o problema com mais profundidade.

    E um deles foi logo dizendo: “Não sei se perceberam; se ninguém caminha ou brinca sobre o pátio, nada acontece. A terra não treme; o barulho do trovão não aparece. É como se fosse um fenômeno, inteligente. Outra coisa, o ruído que vem do chão, é como se alguém cutucasse a terra por baixo, com uma grande vara, ou um cajado mágico...”.

    “De fato é assim”, completou outro. “Seria então uma espécie de mensagem dos mundos ocultos? Uma espécie de divindade querendo se comunicar conosco?”

    “Você quer dizer, uma espécie de deus, tentando expressar seus sentimentos; e esta seria a sua linguagem para se comunicar conosco? Se assim for, podemos testar a veracidade dessa idéia, e basta que batamos naquele chão, e se ele responder, está feito, é isso mesmo!”, sugeriu apressado o mais antigo do grupo.

    E foram fazer o teste. Alguém bateu com os pés duas vezes no chão e ficaram esperando uma resposta. Nada, tudo silêncio. “Vai ver que não foi forte o suficiente, ou ele pode estar em outro lugar, ou muito ocupado. Deixe-me tentar com a bengala.”, disse o membro mais antigo do conselho.

    E ele deu uma grande bordoada no chão. Todos esperaram um pouco em silêncio, e como a resposta não vinha. Resolveu mudar de tática, e gritou enquanto batia com força, repetidas vezes: “Grande divindade do Trovão, se estás a nos escutar, responda agora!”. E de repente, o chão começou a tremer com força, e o barulho do trovão surgiu ecoando por todo o pátio. Era como disseram, como se alguém cutucasse o chão por baixo, com um cajado mágico.

    Todos se curvaram no chão prestando reverência, diante da resposta do fenômeno. Estava comprovado, aquilo de fato era uma coisa inteligente, capaz de conversar com eles, um deus do Trovão. E logo o conselho convocaria uma grande reunião na comunidade, mas não sem antes decidirem eles próprios, o que deveriam fazer com aquela novidade. Sim, porque estavam diante de um evento extraordinário, afinal de contas, não era toda hora que o chão se comunicava com alguém respondendo como um trovão.

    E a reunião começou com a seguinte sugestão: “Bom, já sabemos tratar-se de um ser superior, um deus; agora só precisamos organizar a coisa, estabelecer uma forma padronizada de comunicação entre nós e ele, e mais importante, descobrir para que isso nos serve”.

    “Talvez”, disse outro “sirva para provar que, se somos capazes de conversar com um ser tão poderoso, capaz mesmo de fazer o chão tremer e trovejar, é porque somos também seres superiores aos demais, quer dizer, escolhidos!”. Pronto, aquilo era tudo que todos, de alguma forma, embora não tivessem se expressado antes, também achavam.

    “Precisamos organizar a coisa, dar um nome, criar regras, e assim por diante. Outra coisa, o pátio será a partir de agora considerado um lugar sagrado, e apenas alguns escolhidos, pelo conselho é claro, poderão se comunicar com o novo deus do Trovão. Assim, os escolhidos poderão conversar com o ser superior e decidir o que é melhor para a população”. Todos estavam de acordo.

    “Por que não deixamos ele com o nome que já lhe é popular, o Tuu-pan.”, e como todos concordaram, aquele ficou sendo o nome do deus do Trovão. Mas logo começaram as brigas internas, afinal, ninguém queria deixar de ser um merecedor de falar com aquela entidade divina. Regras foram criadas para determinar quais seriam os escolhidos, e cultos para reverenciar a entidade foram organizados. E havia dias em que a entidade não respondia aos seus apelos, e eles logo imaginam que aquilo seria um sinal de catástrofe para o seu povo. Então sacrifícios e oferendas eram feitos em nome da entidade. Os sacerdotes do novo culto, faziam ladainhas, batiam com suas bengalas dia e noite no solo sagrado, até que a resposta vinha em forma de trovão e o chão tremendo.

    E muito tempo depois, a divindade, começou a emitir novos sons, e logo os intérpretes se encarregaram de imitar aqueles estranhos sons que vinham do chão. Surgiam eles logo após os trovões, ou mesmo durante, o que tornava a coisa um pouco difícil de reproduzir. Mas assim mesmo, depois de muitos estudos, eles conseguiram reproduzir. Aquilo se tornou então o hino à divindade, uma espécie de Mantra[2], e todos nos cultos pronunciavam as tais palavras. E nas escolas, as crianças já eram ensinadas a pronunciar a frase. Não era fácil reproduzir aqueles ruídos, que soava mais ou menos assim: “Saiam do forro da minha casa seus ratos Miseráveis!”.

    Para um Rato, não era nada fácil pronunciar sons daquela natureza, mas eles conseguiam.





    Autor: Alberto Grimm
    Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
    email: alberto.grimm@gmail.com




    Notas:

    [1] Alberto Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
    Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.


    [2] Mantras, são palavras ou sons, que de acordo com a tradição religiosa, tende a evocar energias sagradas para aqueles que as pronunciam.



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