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O Segredo
"Nossa melhor imaginação, não é capaz de nos revelar os segredos ocultos da vida..."
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Aquele não era um dia como os outros, pois pela primeira vez desde que se entendia de gente, um evento muito especial, quer dizer diferente, aconteceria na escola.
E o diretor em pessoa avisara a todos na semana anterior: “A camiseta especialmente feita para o evento, já está à venda na secretaria. Só poderá entrar na escola nesse dia, quem estiver vestindo uma. Como é uma ocasião única, pais, irmãos e amigos também estão convidados; desde que comprem a camisa é claro.” No entanto, ele não conseguia tirar da cabeça, a idéia de que tudo aquilo era apenas uma grande jogada do diretor para arrecadar dinheiro fácil, dos curiosos.
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Como era uma surpresa,, e ninguém sabia do que se tratava, a própria expectativa do mistério, fora a melhor publicidade para o acontecimento. Enquanto isso, a encarregada de vender as camisas, que por ser a dona da escola, conhecia bem todos os segredos internos da casa, tentando conter a histeria coletiva dos alunos, misturados aos pais, tios, irmãos e primos, que também se acotovelavam na secretaria em busca de uma camisa, desorientada diante de tanta gente, que mais pareciam disputar o último frasco do elixir da juventude, sem querer, deixara escapar uma frase muito estranha. Ela dissera, quer dizer, gritara: “Povo mal educado; se tivessem professores de verdade, não seriam assim.”. Suas palavras, claro, não foram ouvidas pela massa enfurecida em busca do seu único objetivo naquele momento, conseguir uma camisa; e a julgar pela reação de todos, mais parecia que teria dito: “Corram, que agora é de graça!”.
Apesar de quase ninguém lhe dar ouvidos, ele ouvira bem suas palavras. Estava bem claro o que dissera, e isso embora nada revelasse sobre o evento, para ele tinha um significado especial, e apenas confirmava uma antiga suspeita que era só sua.
Claro que em suas palavras não havia nada de mais, era apenas um desabafo espontâneo; mas aquilo de alguma forma mexera profundamente com ele. E no dia anterior ao proclamado evento, o que fizera em aula, fora apenas uma complementação ao estudo que já iniciara há muitos anos atrás; observar como agiam os professores. Lembrou do primeiro fato estranho nesse sentido. Foi num dia em que chegara cedo, quando ainda as salas sequer haviam sido abertas. Então, sentado num banco ao lado da secretaria, ele escutara um barulho estranho vindo da sala secreta. A sala secreta, era um quarto dentro da secretaria, cuja porta ninguém nunca vira aberta. O que havia lá dentro, ninguém sabia, e a chave, da qual só havia um exemplar, o diretor a carregava amarrada no pescoço como se fosse o colar mais precioso da terra. Ali só entrava ele e sua mulher, a mesma encarregada de vender as camisetas.
E ao barulho estranho, uma espécie de zumbido, como uma broca de dentista gigante, perfurando o maior dente da história, seguiu-se o cochicho de alguém que dissera: “Nossa, você não a programou com as aulas de hoje, agora teremos que reinstalar todo sistema operacional outra vez”. E outra pessoa respondeu: “Não dá tempo, uma nova carga do sistema leva no mínimo duas horas. O Jeito é deixar assim mesmo; acho que ninguém vai perceber o problema, e a noite nós consertamos”. E então, poucos minutos depois, ele vira saindo pela porta da sala secreta, sua professora, e os demais professores da escola. Até aí, a única novidade era o fato de ter visto pela primeira vez a porta da sala secreta aberta, e de saber que os professores ficavam lá dentro, antes de se dirigirem às suas salas.
O problema foi na hora da aula, quando sua professora começou a repetir a aula do dia anterior. Até aí também não havia grandes novidades, pois era quase tudo igual mesmo, e a mudança era sempre a mesma; apenas o número da página do livro onde deveriam abrir naquele dia, quer dizer num dia normal, e esta, a página, nunca se repetia. Então ela cumprimentou a todos por igual, e a primeira atitude suspeita foi quando cumprimentou um aluno que faltara; mas que estivera presente na aula anterior.
Se tivesse cumprimentado de cabeça baixa como já fizera algumas vezes, estaria tudo bem, mas dessa vez estava com a cabeça erguida, ereta e atenta, olhando nos olhos de todos, inclusive à carteira vazia com a qual falou como se o aluno faltante estivesse lá sentado. Alguém ainda disse que ele faltara, mas ela impassível, sem dar ouvidos, prosseguiu cumprimentado a todos como se executasse uma operação mecânica impossível de ser interrompida depois de iniciada.
Então ele percebeu que ela fizera aquilo no dia anterior, exatamente daquela forma, repetindo até a tosse após mencionar o nome do terceiro aluno. Ela sempre intercalava uma tosse, exatamente igual em intensidade, duração e gestos faciais, entre uma ou outra chamada. Aquilo era tão previsível, que muitos alunos até apostavam, para ver após o nome de quem ela iria tossir naquele dia. Mas, naquele dia, ela repetira tudo por igual. Pediu para abrirem na mesma página do dia anterior; fizera os mesmos gracejos, os mesmos comentários sobre o tempo, a mesma observação sobre uma notícia do dia anterior; como se fosse uma notícia do dia. Podia ser apenas uma distração que passaria desapercebida diante de todos, mais preocupados que estavam em comentarem entre si, sobre as últimas novidades que cada um trouxera de casa, desde a aula passada.
Então ele, que sempre anotava todas as reações dos professores, seus gestos; e também gravava em seu pequeno Pen-Drive toda aula, e depois conferia com o dia anterior, para atestar uma antiga suspeita sua, naquele dia, ficou impressionado. Ela repetira a aula do dia anterior, de uma forma única; todas as palavras e entonações, todas as sílabas e gestos, tudo; tudo como se fosse uma máquina que por alguma razão operacional, não fora atualizada para a aula daquele dia. Então lembrou do momento em que estivera na secretaria, antes do início das aulas; dos comentários que ouvira, das palavras de alguém que dissera: “Você não a programou com as aulas de hoje...”. Ela, foi a palavra que aquela pessoa dissera; e só havia uma Ela, e esta era a sua professora; os outros professores eram homens, Eles portanto. Era coincidência demais alguém dizer aquilo, e agora Ela, confirmando suas palavras, agir como
se ainda estivesse vivendo o dia anterior. Seria ela uma máquina?
Esse pensamento não era novo para ele, pois todos os professores agiam como máquinas. Eram previsíveis, apenas repetiam as coisas dos livros, o que não havia nada de novo; faziam sempre os mesmos e vazios comentários, como se interpretassem para uma platéia de outras máquinas audientes, agindo como seres sem vontade, sem sentimentos. Até quando riam, parecia se fazer ouvir o barulho das engrenagens a mover os músculos dos seus maxilares. Teve receio que seus pensamentos pudessem ser escutados por alguém, e tentou pensar em outra coisa. Mas agora, observando com mais atenção, podia ver claramente que sua professora possuía todas as características de uma máquina. Suas respostas eram mecânicas para tudo que os alunos questionavam, não ouvia o que falavam, e como uma autoridade legisladora, apenas estava ali para informar dos deveres de cada um, não para orientá-los.
Lembrou de todos os dias anteriores, de todos os anos desde que começara a estudar. Lembrou dos comportamentos mecânicos e sempre como que obedecendo a uma coreografia ensaiada, que todos adotavam por igual. Eram sérios e de poucas palavras nas segundas e terças; mais ou menos nas quartas e quintas, e mais alegres nas sextas; anos após ano, sempre igual, todos eles, como verdadeiras máquinas programadas para agir daquela forma. E o conteúdo didático? Matérias e mais matérias inúteis, sem que ninguém parasse para justificar o motivo de tanta coisa desnecessária, que lhes empurravam cérebro adentro; e sem que ninguém questionasse se aquilo servia para alguma coisa. Era uma rotina assustadora e sem finalidade alguma. Lembrou das cinco aulas seguidas, onde ficara sabendo tudo sobre a dieta básica dos mamutes;
Se isso na vida prática serviria para alguma coisa, nunca disseram.
Chegou ainda mais cedo no outro dia, tão cedo que teve que pular o muro da escola. Escondeu-se atrás de uma moita do jardim da secretaria, perto de uma janela falsa da sala secreta. Estava mesmo disposto a ouvir “barulhos” de dentro, que poderiam lhe responder alguma coisa; e acabou por escutar a conversa que rolava lá dentro.
“Pronto”, dissera a mesma voz do dia anterior; “instalei um novo sistema operacional na professora, com um pacote de atualização dinâmica e reinstalei seu sistema de som; assim terá uma tosse em 64 canais. Também, coloquei nela um mecanismo, que permite, que num caso de pane como o de ontem, ela dê aula, mas que o faça repetindo trechos aleatórios de várias outras aulas, o que dará aos alunos a impressão, de que é uma aula sempre nova”. E o outro comentou: “Brilhante essa rotina nova”. Ao que o outro completou: “Baixei na internet ontem”.
Autor: Alberto Grimm
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
email: alberto.grimm@gmail.com
Notas:
[1]
Alberto Grimm, é escritor de histórias infantis, e agora nos presenteia com seus contos, como um eventual colaborador do Site de Dicas.
Os contos são fábulas modernas, das quais sempre podemos extrair formidáveis lições de vida, que muito favorece à reflexão.
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