A professora Marisa hoje, coordena no Brasil o projeto Kidlink, uma organização
internacional, que tem como objetivo envolver o maior número possível de jovens de até 15 anos
num bate papo global.
A experiência com o Kidlink proporcionou à educadora, que sempre trabalhou em escolas particulares, conhecer crianças de realidades muito diferentes.
Nos últimos anos, aprendeu que nem toda criança gosta de PC e que para meninos pobres micro é
muito mais que uma diversão: pode ser uma possibilidade de ascensão social.
Casada com Carlos Lucena, um dos grandes nomes da informática no Brasil, vive cercada de livros
sobre computadores e educação em sua casa no Leblon, onde deu essa entrevista ao caderninho.
A ENTREVISTA:
Crianças mais pobres vêem o micro de outra forma?
MARISA LUCENA: As crianças de escola pública têm uma consciência muito maior, em relação às de escolas particulares, de que o computador pode ser um trampolim. Eles até dizem coisas como "agora que eu sei usar computador, quando crescer, vou ser gerente de banco". Entre crianças de escolas particulares não há esta noção. Para elas, não houve apropriação de um saber, porque o computador é como a TV ou o videocassete. Já os mais pobres sabem que o computador é muito importante e que está dando algo mais à educação deles.
Depois de tantos anos de pesquisa, o que se sabe sobre o uso do computador na escola?
MARISA: Acho que já esgotamos pesquisas para saber se os computadores são úteis à educação. Eles são, já sabemos. Agora, queremos que sejam divulgadas pesquisas, já existentes, sobre como, quando e onde usar o computador. Mas no momento minha maior preocupação é com a ergonomia nos laboratórios, com a postura das crianças. A criança pode ficar horas na frente do computador, mas tem que estar confortável, com os pés no chão, os braços apoiados, o monitor na altura dos olhos. Assim como nos anos 60 houve uma grande revolução nas escolas para se instalar um mobiliário apropriado para as crianças, deve-se começar a tomar cuidados para evitar novos vícios. Pesquisa-se sobre quais são os melhores softwares educacionais, quais os melhores sites, mas ainda não se sabe escolher móveis adequados.
Que novidades o micro trouxe para a escola?
MARISA: Quando uma criança usa o computador para criar um texto, por exemplo, expõe suas idéias na tela, que substitui o papel. O trabalho começa a ficar exposto ali. Além disso, como as crianças trabalham em duplas, nenhum parceiro vai deixar que o outro exponha uma idéia sem explicar por que está fazendo daquele jeito. A criança passa a verbalizar e a dar significado ao que pensa. E o parceiro contesta até que se chegue a uma conclusão. Outra vantagem é o aumento da auto-estima, na medida em que os alunos sabem que estão produzindo um texto para uma grande audiência, não só para o professor. O parceiro já é uma audiência. Depois, a oficina de produção permite que as idéias sejam lançadas em voz alta e uma criança de outro computador pode se interessar por ouvir ou ler aquela história. Isso sem falar na veiculação do trabalho na Internet, como acontece em muitos casos. A disciplina em sala de aula é diferente. Há sempre um burburinho. O que nos interessa é que participem, ponham para fora o pensamento. Mas a primeira impressão que tem os não familiarizados é a de que tanta confusão não vai dar certo...
Houve dificuldades no trabalho com as crianças pobres?
MARISA: Algumas. Nunca nos passou pela cabeça, por exemplo, que fôssemos receber crianças que não têm endereço. Crianças que nunca receberam ou enviaram uma carta. Como é que vamos falar de troca de e-mail? Foi demais para a cabeça delas, que não conheciam o concreto, que dirá o virtual. Então tivemos que trabalhar uma noção que a escola já deveria ter trabalhado: brincamos de enviar cartas. Nós também não nos propusemos a alfabetizar as crianças que chegassem. Entretanto, foi impossível trabalhar com elas, algumas de quarta série, no estágio em que estavam. Era impossível deixar as mensagens dessas crianças saírem para as listas com outras que lêem e escrevem bem. Tivemos que usar softwares com exercícios de reforço de alfabetização.
Existe uma regra para escolher software?
MARISA: Seja para casa ou para escola, é preciso saber se é interativo e agradável. Mas o mais importante, no caso da escola, é saber sempre qual o objetivo a ser trabalhado em sala de aula e que software pode se adequar a esse objetivo. Quando um pai compra um programa para ser usado em casa, a primeira coisa a fazer é não dizer que o software vai ajudar na escola. O filho vai se desinteressar. É importante escolher os que trazem algum conhecimento geral. Mas até um editor de textos pode proporcionar uma atividade interessante na escola. Ou um banco de dados. Depende da aplicação que se dá. Um software ou um site que não foram criados para serem educacionais podem ser úteis na sala de aula.
Pode dar um exemplo?
MARISA: Aos olhos de alguém que não seja um profissional da educação, um site sobre cartões não é educacional. Mas você pode trabalhar a afetividade ao pedir que a criança escolha imagens e palavras que vai usar no cartão virtual a ser enviado para a avó, por exemplo. Pode-se estudar pesos e medidas em sites de receitas culinárias. O professor tem que ser mais criativo. Talvez esteja faltando isso.Recebi recentemente relatórios sobre escolas americanas que dão a impressão de que tudo lá é maravilhoso, todos estão conectados e os professores aceitam tudo de peito aberto. Não é verdade. Quem visitou essas escolas vê que eles não têm jogo de cintura, não sabem adaptar um jogo à realidade das crianças.
Já se sabe que não basta ter computador. O que é mais importante, então?
MARISA: O importante é ter uma proposta pedagógica. Os professores brasileiros já sabem que não podem ficar sem saber usar o computador em sala de aula. Antes mesmo de ter computador na escola, alguns conseguem comprar micro para suas casas. Acessam a Internet e descobrem as listas de discussão onde trocam idéias sobre propostas pedagógicas. Levam a experiência que tiveram na lista para a sala de aula. Fazem isso sem intervenção do governo, ou de qualquer instituição. Acho que os colegas precisam entender que se apropriar da máquina é muito fácil. O negócio é saber qual a aplicação e o momento certo. Não adianta também querer que o professor faça suas aulas inteiras no computador. Para que pôr o seu conteúdo num micro? Principalmente quando já se conta com outros recursos para isso. O livro didático não será abandonado. Uma mídia não exclui outra.
Nesses dois anos, apesar do pouco tempo, já deu para avaliar se as crianças vão à KHouse porque querem? Ou elas vão porque são obrigadas?
MARISA: Eles costumam faltar muito às aulas nas suas escolas, que também são obrigatórias, mas não faltam no dia que precisam vir à KHouse, à aula de computador. Chegam sempre bem uniformizadas, não esquecem de trazer a camiseta KHouse. Em 99 vamos lançar a KHouse aberta e poderemos realmente avaliar se as crianças comparecerão espontaneamente. Porque não é verdade que toda criança se dá bem com o PC. Nem toda criança gosta de computador. O micro não faz milagres. A criança tem que querer, gostar, se interessar. Como tudo na vida.
Criança é diferente de adulto quando usa micro?
MARISA: O que nos impressiona é a capacidade que a criança tem de começar do zero. Se por acaso a máquina trava, e o que foi escrito no editor se perde, o adulto se desespera. E tenta refazer o que fez exatamente como tinha feito antes. A criança nem liga. Começa tudo de novo. E dessa segunda vez, diferente. Acredito que uma criança que está sendo criada nesses termos, será um adulto menos ansioso quando tiver que fazer seus grandes textos. O bonito de trabalhar com criança é ver como elas ensinam e o professor descobre que não é o dono da verdade, pode ser humilde e perguntar: "Vem cá, me mostra como foi que você fez isso."