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Disciplina Dentro de Casa
"Educação não é a simples transferência do conteúdo de um livro, para o cérebro."
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A experiência do aprender não pode resultar de teorias, fazer isso é coisa inútil. Como
atividade para momentos ociosos serve, mas não pode ser chamada de pedagogia.
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Não desenvolvemos nosso tato, ou audição, ou paladar, o que na verdade ocorre, é
a simples adaptação dos mesmos às condições ambientais. O resto é interpretação, é dar nomes ao que estamos fazendo, ao
que estamos sentindo. Não se amplia o tato, ou audição, ou paladar, através do conhecimento adquirido, apenas nos
especializamos em interpretar aquilo com o qual temos contato.
Seria de grande utilidade que aprendêssemos sobre nós mesmos, antes de
nos propormos a ensinar nossos filhos e alunos. Não deveríamos ensinar aquilo que não somos, mas podemos fazê-los
repetir aquilo que também já repetimos. Isso não é educar, trata-se apenas de fazê-los, à força de alguma
sugestão, adaptarem-se ao que também já nos adaptamos antes deles. Repassamos instruções, assim também como
nos repassaram um dia. Instruções não educam, mas ajudam a tornar o indivíduo, um excelente profissional, um
exímio imitador de gestos, expressões e palavras alheias.
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Poderíamos começar do básico, com nossos medos. O que são os nossos medos e
por que, a despeito de toda força da tradição, da cultura milenar, da nossa especialização que atinge o mais elevado
nível intelectual, ainda não somos capazes de lidar adequadamente com ele? Por que ele persiste em nos atormentar
vida afora apesar de todo poderio intelectual conquistado pelo homem até esse momento? Criam-se especialistas na
psique humana, especialistas em angústias, em tristezas, mas a despeito de tanto empenho, por que tais perturbações
continuam a fazer parte dos nossos mais importantes problemas?
Não começamos agora, somos o resultado de milênios de cultura e tradição; do poder das autoridades
doutrinárias, dos reformadores “bem intencionados”, das centenas de homens de “boa vontade” que já povoaram as
muitas civilizações de todos os tempos, e nossos problemas, ao contrário de nós, não são coisa nova. Somos recentes
sobre a terra, nossos problemas não o são. Perduram a milhares de homens e tradições; de mudanças e guerras sociais,
e a despeito do progresso material alcançado, psicologicamente parece que não progredimos um passo sequer.
Ainda somos tão medrosos quanto
nossos mais primitivos ancestrais, e nossos estados emocionais, nunca compreendidos, portanto nunca
resolvidos, continuam a ser nosso principal embaraço existencial. Por que insistem as instituições chamadas de educacionais, em manter os seus modelos que já
sabem tratar-se de uma metodologia estúpida, e sem pretensão nenhuma de construir um homem sensato? São capazes de
instruir alunos a se tornarem repetidores voluntários, que agindo como se fossem máquinas, vivem no seu dia a dia
como autômatos, seguindo ordens, obedecendo à comandos, sem a menor sensibilidade; repletos de todos os medos e
angústias que já experimentaram todos os outros homens.
Não poderia ser diferente a angústia desse homem, uma vez que como
imitadores perfeitos que são, que simplesmente se adaptam às situações do dia a dia, ou se deixam levar como pesos
mortos, sem opor resistência alguma, ao sabor da correnteza, continuam a repetir até a forma dos sofrimentos dos ancestrais.
Se o objetivo da vida de cada homem, “educado” segundo estes critérios
for à manutenção do caos humano, da angústia e sofrimento que se arrasta civilização após civilização; da manutenção
dos seus medos e violência, das guerras cujo objetivo é tão somente defender a supremacia de opiniões estúpidas
e sem valor, então as escolas atuais são perfeitas para ele. Se ao contrário, qualquer uma dessas coisas o
incomoda, não o são, uma vez que não cuidam de ajudar a resolver esse problema.
Observando a ordem interna de nossas casas, logo podemos perceber, que
o bom senso que buscamos fora dela, deve-se ao fato de não o praticarmos internamente. Na maioria das vezes, os
melhores amigos de nossos filhos e filhas, não são seus pais, mas amigos de fora. Isso é quase uma regra geral, que
faz parte da tradição e cultura, que é mesmo incentivado pelas escolas e pelos próprios pais, e alguns poucos que
se aventuram em contrariar tal prática, logo são considerados estranhos, de fora de moda, ou caretas.
A criança, mais que um adulto, necessita de cuidados especiais, de uma
atenção maior por parte dos educadores e pais. Estão elas sendo “formatadas” para se tornarem adultos, e a depender
dessa formatação, construirão um mundo de desarmonia ou harmonia. Mas como podemos construir nosso filho ou aluno, à imagem do bom senso, se as
influências de todas as partes, a nosso ver, teimam em fazer o contrário? Será que o exemplo não começa dentro de
casa? Afinal de contas, esse é o ponto de origem de qualquer criança. É seu ponto de partida e de chegada ao final
do dia, ou do período que se mantém afastado dos pais.
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Os problemas do mundo já existiam antes de nós existirmos. Não existem novos problemas, apenas novos indivíduos experimentando as mesmas coisas.
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Supondo que caminhemos sobre uma linha reta, sobre a qual podemos andar para trás ou
para frente; e qualquer que seja o sentido ou a direção que venhamos a tomar, será sempre, para trás ou para frente. É uma
linha inflexível, e esta representa o que nesse momento somos como indivíduo; nossa inteira formação psicológica, nosso
modo de avaliar coisas e pessoas, nosso arquivo pessoal de informações com
as quais julgamos qualquer situação do nosso viver. Essa linha inflexível representa o tempo, o tempo necessário
para a assimilação das idéias do mundo, e construção de nossa personalidade. Não são idéias novas, pois nem o mundo
é novo, nem suas tradições são novas. Mas como seres recém chegados ao mundo, logo nos tornaremos tão velhos quanto
suas idéias e tradições, pois são elas que formatarão nossas personalidades, e sentimentos, e medos, e angústias.
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Podemos constatar tudo isso de uma forma muito singular. Perguntemo-nos se há
em nós algum sentimento emocional único, nunca experimentado e rotulado antes por mais ninguém;
e mais ainda, se há alguma idéia absolutamente nova em nossos pensamentos, uma vez que qualquer idéia se baseia em tudo
que existe, e que já assimilamos do próprio mundo. A resposta será não, pois o mesmo conhecimento que formou minha psique
é também do mundo, e está disponível para todos. É claro que cada cultura contribui com uma parte, e na parte de nossa
cultura, nos encaixamos. E todas as culturas juntas, como fragmentos, formam o conhecimento do mundo, a mente, ou
psique possível desse mundo.
Isso inclui o conhecimento material e o emocional; os problemas criados
e as soluções sempre parciais que se apresentam. Somos o resultado de tudo isso, e sensato seria questionarmos por
que as soluções são sempre parciais, e por que ainda há o problema do medo, dos conflitos, do sofrimento.
Passados tantos séculos de tentativas; de planos para colocar o homem
em ordem, de repressão violenta com a mesma intenção; de reformas sociais e religiosas, sem um resultado definitivo,
resta-nos questionar se o pensamento do homem, todo o seu conhecimento, é capaz de promover essa tal transformação.
Podemos continuar a esperar pela escola, pelas reformas sociais ou
políticas; que o tempo resolva a questão, a despeito de passados milhares de anos e civilizações, ainda não o ter
feito, ou podemos, ao contrário, começarmos uma reforma em casa, um ajuste interno
que não dependa mais de tais influências ou opiniões, de quem quer que seja. É um passo gigantesco, uma vez que
não nos guiaremos mais por ninguém, nenhuma tradição ou propaganda. Será um aprendizado novo, a partir de nós
mesmos, da prática com nossa família e amigos, do contato intimo com nossos filhos e cônjuges. Aprenderemos
enquanto vivenciamos, enquanto sentimos; enquanto sofremos com nossos problemas, ou enquanto nos empenhamos
em resolvê-los, e dessa experiência, certamente que nascerá um novo homem.
Autor: Jon Talber
email: jontalber@gmail.com
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.
Notas:
[1]
Jon Talber é pedagogo e escritor de temas de auto-ajuda. É pesquisador, e estudou por muito tempo filosofia oriental,
antropologia, os costumes antigos e a importância das tradições sobre nossas personalidades.
Torna-se mais um colaborador eventual do nosso Site, onde pretende compartilhar parte daquilo que aprendeu.
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